Já deduzi, já senti, já acreditei, mas os significados perecem, sim,
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Laranjas
Parada a beira do caminho em um esqueleto improvisado de barraca-madeira, placa de papel erguida com os dizeres
DESCASCA-SE LARANJAS
O entusiasmo baseia-se basicamente nas mesmas parcelas e porcentagens balanceadas da loucura
Pare! O que vem a seguir é uma compilação longa composta pela junção de seis mil novecentas e quarenta quatro palavras sobre um assunto beirando a ficção científica e baseando-se um pouquinho num dos livros mais conhecidos do mestre King, mas, que ao mesmo tempo, chega a ser extremamente deprimente. São muitas informações em pouco espaço, são parágrafos longos que vão fazer você se perder. Não é um texto que vai acrescentar conteúdo filosófico e discutível a sua vida, não é algo útil. Se mesmo assim pretende ler, boa sorte e boa sorte com esta porta.
Haicai falso dos parênteses sorumbáticos
Baseou-se no absurdo
partilhou do equívoco;
(abriu os olhos)
a bravura habitava-o.
Todavia veio a realidade
(fechou os olhos –
temia o que podia ver).
Ensaio sobre H. J. Potter
“É apenas uma história”, afirmam de nariz empinado enquanto consultam apressados um relógio de pulso. Mas... de vez em quando essas histórias se tornam importantes para a existência plena de alguém; mesmo que seja pelo mais bucólico motivo. Pessoas precisam de luz, pessoas precisam de fé, pessoas precisam ouvir histórias.
E minha mãe, apesar de indiretamente, é uma grande contadora de histórias. Pergunto-me todos os dias o que seria do meu caráter se ela não tivesse sido essa espécie de ratinho que sempre farejava novos VHS por aí. Preocupo-me por demais quando penso em qual seria minha relação com livros e imaginação se ela não tivesse corrido atrás dessa fita cassete de The Pagemaster. Só sei que tenho medo.
E, sim, me lembro bem daquele dia. Estava quente e eu estava mal humorada, mas mesmo assim minha mãe quis dar uma passada rápida na locadora. Só sei que queria ir embora. Mas é claro que ela se encantou com aquela fita, é evidente. Oh, sim, mas que tipo de adulto insensível de trinta e seis anos não se encantaria com uma fontinha mal caráter indicando um nome gringo feio, um brutamontes cabeludo carregando uma lanterna, (porém o velho mago grisalho que se parecia com o Pagemaster era bem interessante), um castelo mal-assombrado lá em cima, velas voando sozinhas!, uma raparigazinha de rosto cheio, carregando livros velhos, fedorentos e de páginas amarelas? E isso sem falar no menino voando numa vassoura lá atrás.
“Ah, mãe, mas faça-me um favor!”.
Mas o mais interessante de tudo é que a tal adulta de trinta e seis anos não queria alugar aquela fita de fantasia para a filha pequena, mas para sua própria diversão! Mariana estava apoquentada. Só queria ir para casa e jogar em seu Windows 98. (A mãe levou o segundo filme da série de bônus. “Diversão”, ela dizia.) Eis que chegaram em casa e Mariana tirou os tênis. Sua mãe fazia pipoca.
Mas quando a mãe colocou a fita no aparelho e Mariana viu o velho grisalho (“oh! O Pagemaster é humano!") chegando naquele conjunto de casas idênticas, aquele gato se transformando em mulher, teve que dirigir-se para o sofá, roubar a pipoca e pedir para rebobinar. E foi assim que ela encontrou a sua história.
Sobre folhas nuas
Folhas nuas pt. 1
[Eu não sei exatamente o que vem a ser uma folha nua, mas simplesmente me pareceu um bom título. Encaro o termo “folha nua” como uma película transparente e impermeável. Então, no resumo, é como se fosse um raio x do único apartamento em uso do meu prédio. Não é algo interessante, mas é preciso.]
A probabilidade + uma análise detalhada sobre os dezesseis outonos
Ela não sabia precisamente como chegara até ali, mas tinha completa convicção de que a situação proposta não era fantasia; era real, ela sentia nos ossos. E estremecia.
O capim seco e quase amarelo lhe presenteava com parcelas consideráveis de horror. O que seria o certo a pensar sobre um local onde nem os animais se alimentavam? Não. Seu irmão e o filho de seu tio analisavam a construção ao fundo. Precária não descreveria. Era cercada com grade – talvez tivesse sido eletrificada no passado, mas hoje não passava de arame fácil de modelar, completamente inofensivo.
“Poderíamos entrar”, seu irmão sugeriu, “e verificar”.
“Pode haver corpos”, ela disse. A ideia não lhe parecia de todo mau, sentia atração pelo mistério. Mas não metas o bedelho onde não fores chamado.
Esses dias, cara, esses dias
Hoje foi um desses dias em que despertei com o simples propósito e anseio de segurar o rosto e pensar. Pensar no propósito mínimo – “fica, entre divertido e irônico, observando aquele curioso painel humano e organizando um pensamento sobre estas sociedades tropicais, que passam da barbárie para a decadência sem a etapa intermediária da civilização”. Nesse processo lento e detalhado, as lembranças começam a desabrochar também, chegando ao lanche simples no quintal vestidas à rigor. E percebi o quanto fui e o quanto sou covarde. Não apenas medo, horror. Em tentar, em mudanças, em novidades. Hipocondríaco se afogando em seus fracassos e temores mais escondidos porque seus remédios desistiram devido ao pessimismo excessivo. “Afraid to live, but without courage to die”. Escritor brilhante sem máquina de escrever – sem a capacidade de transcrever a ideia para o papel. “If God wanted us to be brave, why did He give us legs?”. Alguém sente o desespero mas não consegue se envolver – “an SEP is something that we can’t see, or don’t see, or our brain doesn’t let us see, because we think that it’s somebody else’s problem”. Um poeta sem amor. Uma jovem com medo do futuro.
Esqueço. Guardo a sete chaves.
As lembranças nunca voltaram.
Nada aconteceu.
"I have memories but only a fool stores his past in the future.”
Sobre o porquê eu não gosto de sopas
Era uma vez uma vila pacífica e comunitária na borda de uma floresta sábia. Os moradores eram pessoas pequenas de cabelos encaracolados e grandes olhos curiosos. Tratavam-se como iguais e sabiam os limites do outro. Eram pontuais e “desperdício” era uma palavra desconhecida em seu vocabulário. No resumo, eram pessoas inacreditavelmente agradáveis. Ah, e também eram gentis até mandá-los parar. Gostavam de beber chá com mel tomando os restos finais do sol, comer pão com mel, tomar leite com mel e idolatravam bicicletas, assim como o mel. E sopas.
Porém, certa coisa curiosa aconteceu uma vez. Um homem de nariz arrebitado para o céu e um pesado ar de superior apareceu na vila de calças curtas. Logo de início, os moradores ficaram fascinados com aquele estranho. Ora, ele tinha roupas da cor do mel! Ora, ele tinha roupas! E uma pequena discussão se iniciou para saber quem iria preparar o chá, quem iria adicionar o mel e cortar o pão, quem iria colher os ingredientes para a sopa...
Enquanto isso, o estranho olhava para as pessoas pequenas de olhos arregalados. Eles estavam nus!
- Parem com esta balbúrdia! – ele gritou.
Os moradores se calaram e olharam o estranho homem.
Estória do porque você não deve comprar livros se pretende deixá-los viver por conta própria
“João. João Silva.”
Sim, realmente um nome simples e comum, mas João gostava. Gostava porque era o nome dele, ora. E mesmo que existam mais três bilhões de João Silva por aí, não fazerá diferença na vida do nosso João porque ele é único. Bem, pelo menos foi isso que ele aprendeu na escola. Não se lembrava de ter frequentado a escola, nem de ouvir ninguém falando sobre isso; ele apenas se lembrava de saber, se lembrava de lembrar.
João também não se lembrava da sensação de ter passado no vestibular e ter se formado em Neurologia. Nem de como conheceu sua noiva e seu melhor amigo, nem de como tinha largado o vício do ócio. Muito menos de onde aprendera esgrima. E Shiatsu. Às vezes ele tentava imaginar como fora o choque exato ao saber da morte do pai naquele acidente de carro... mas tudo o que conseguia imaginar era um grande muro branco com o desenho de um inseto — e que inseto pavoroso era aquele ali, pintado com tinta preta no muro? Também queria saber quando fora a primeira vez que cantara a música “Every Sperm Is Sacred”.
O caso é que João estava tendo pesadelos diários há três dias, semanas, meses, anos? Ele não se lembrava ele era exatamente, mas, sempre que tentava se lembrar, sentia certo receio. João era um homem corajoso. Se algo o dava receio era porque era algo gravíssimo. Laura, sua noiva, e Luízio, seu amigo, também estavam preocupados — tinham os mesmos pesadelos com frequência, mas tinham vergonha de admitir. E se também estivessem ficando loucos?
Sim, realmente um nome simples e comum, mas João gostava. Gostava porque era o nome dele, ora. E mesmo que existam mais três bilhões de João Silva por aí, não fazerá diferença na vida do nosso João porque ele é único. Bem, pelo menos foi isso que ele aprendeu na escola. Não se lembrava de ter frequentado a escola, nem de ouvir ninguém falando sobre isso; ele apenas se lembrava de saber, se lembrava de lembrar.
João também não se lembrava da sensação de ter passado no vestibular e ter se formado em Neurologia. Nem de como conheceu sua noiva e seu melhor amigo, nem de como tinha largado o vício do ócio. Muito menos de onde aprendera esgrima. E Shiatsu. Às vezes ele tentava imaginar como fora o choque exato ao saber da morte do pai naquele acidente de carro... mas tudo o que conseguia imaginar era um grande muro branco com o desenho de um inseto — e que inseto pavoroso era aquele ali, pintado com tinta preta no muro? Também queria saber quando fora a primeira vez que cantara a música “Every Sperm Is Sacred”.
O caso é que João estava tendo pesadelos diários há três dias, semanas, meses, anos? Ele não se lembrava ele era exatamente, mas, sempre que tentava se lembrar, sentia certo receio. João era um homem corajoso. Se algo o dava receio era porque era algo gravíssimo. Laura, sua noiva, e Luízio, seu amigo, também estavam preocupados — tinham os mesmos pesadelos com frequência, mas tinham vergonha de admitir. E se também estivessem ficando loucos?
Só pra sair um pouco da rotina
No lugar deste post de hoje, eu poderia postar um texto inédito de um outro blog meu que faliu ou até mesmo criar algum paragráfo que a meu ver ficasse apresentável, mas decidi que não quero. Eu também poderia escrever alguma coisa não-ficcional, como por exemplo: "Minha síndrome Peter Pan de não querer mais fazer aniversários", mas deixarei isso para depois. Talvez tu devas parar de ler este post por aqui pois vou apresentar três bandas >brasileiras< que admiro muito. Então, se tu quiseres se retirar, tudo bem, vou entender, mas em caso contrário, sinta-se à la volonté para ter uma ligeira viagem em meu gosto musical.
Cebolinha com seus planos infalíveis ia me ensinar a ser
Era uma vez uma menina que não tinha propósito para a vida. Contentava-se em existir, não em viver. Já que se ela fosse americana, pegaria uma pistola e a cabeça, ia perder a razão; mataria quinze na escola, estouraria a cachola e apareceria na televisão. Mas não. O destino quis que fosse mais uma brasileira, com o jeito insistente de sempre terminar tudo o que começa, mesmo que seja desleixado; teimosa, esperançosa, orgulhosa de ser pentacampeã. No fundo, não se importava. Às vezes, na maioria delas, só queria correr e fazer uma casinha de madeira num campo com vacas malhadas, céu azul, nuvens e um riachinho bom de se nadar. Em outras, se contentava em dormir.
Gostava de acordar cedo, de beber chocolate quente pela manhã e comer pães recheados caseiros. De se trancar no banheiro e cantar silenciosamente em frente ao espelho, fingindo ser uma vocalista famosíssima. Coçava-se quando estava nervosa e sorria na maior facilidade. Sua vida era uma rotina minuciosamente planejada com dias e dias de antecedência até chegar no lenga-lenga que vivia atualmente. Adorava. Sorria contente consigo mesma sempre que percebia que estava fazendo as coisas nas horas marcadas e combinadas.
Sabia que a vida era dura e que tudo era questão de se acostumar. Coragem, finura e jogo de cintura – fácil, fácil, fácil de se aprender de bar em bar. No final da história, tinha sido só mais uma que soube aproveitar a vida nos mínimos detalhes e se deliciar a cada segundo. Foi só feliz.
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