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Sobre o porquê eu não gosto de sopas

Era uma vez uma vila pacífica e comunitária na borda de uma floresta sábia. Os moradores eram pessoas pequenas de cabelos encaracolados e grandes olhos curiosos. Tratavam-se como iguais e sabiam os limites do outro. Eram pontuais e “desperdício” era uma palavra desconhecida em seu vocabulário. No resumo, eram pessoas inacreditavelmente agradáveis. Ah, e também eram gentis até mandá-los parar. Gostavam de beber chá com mel tomando os restos finais do sol, comer pão com mel, tomar leite com mel e idolatravam bicicletas, assim como o mel. E sopas.

Porém, certa coisa curiosa aconteceu uma vez. Um homem de nariz arrebitado para o céu e um pesado ar de superior apareceu na vila de calças curtas. Logo de início, os moradores ficaram fascinados com aquele estranho. Ora, ele tinha roupas da cor do mel! Ora, ele tinha roupas! E uma pequena discussão se iniciou para saber quem iria preparar o chá, quem iria adicionar o mel e cortar o pão, quem iria colher os ingredientes para a sopa...

Enquanto isso, o estranho olhava para as pessoas pequenas de olhos arregalados. Eles estavam nus!

- Parem com esta balbúrdia! – ele gritou.

Os moradores se calaram e olharam o estranho homem.
- Obrigado. Agora, por favor, poderiam me explicar o motivo de estarem todos nus? Este lugar é alguma espécie de piada de mau gosto ou uma espécie de orgia?

E além do mais, o estranho era inteligente e se dava bem com as palavras! Os moradores ficaram encantados e voltaram a discutir sobre quem iria realizar as tarefas. O homem, depois de perceber que não adiantaria nada forçar mais a garganta, pôs-se a esperar a refeição.

E quando ela chegou, teve que admitir que era uma comida de boa qualidade. Quando os moradores se acalmaram e se puseram em volta da mesa para ouvi-lo falar, o homem elaborou um discurso curto.

- Não deve ser de seu conhecimento para quem eu trabalho. Sou Secretário do Rei e vocês estão ocupando as terras dele.

- Senhor, quem é Rei? – um deles perguntou.

- ...porém sou um bom homem e direi a ele que vocês podem ser de algum benefício para a sua corte e o seu reino. Mas preciso saber de uma coisa: como vocês vieram parar aqui?

- Nós sempre estivemos aqui! – quase disseram em coro, orgulhosos. – Somos a nona geração!

- ...porque só estou aqui por uma infelicidade. Saí do meu cavalo para beber um pouco de água e quando voltei... ele não estava mais lá. Comecei a procurá-lo – pois não conseguiria voltar ao reino a pé – e achei uma trilha que dava exatamente... aqui. – Olhou-os com muita curiosidade.

Pouco tempo depois, mais pessoas com calças curtas chegaram à pequena vila. Três ou quatro moradores foram levados para “conhecimento”. Outras pessoas chegaram e começaram a tirar medidas da maioria. Iriam ganhar roupas e estavam radiantes com a notícia. Eles gostavam dos calças curtas de verdade. Eles sempre sorriam e nunca negavam comida ou um travesseiro fofo.

Um dia o Rei apareceu. Ao contrário dos outros calças curtas, ele não encarava a vila e a floresta como um lugar misterioso, mas sim como apenas um empecilho. Sentiram de longe que logo, logo a atual realidade deles o abandonaria. O Rei queria construir uma rede de esgotos. Uma grande rede de esgotos. A maior rede de esgotos do mundo inteiro. Eles não sabiam o que esgoto significava, mas deveria ser uma coisa ruim.

O tempo foi passando e os moradores estavam experimentando pela primeira vez o sentimento de raiva. Os calças curtas empregados do rei não podiam ser menos silenciosos para a construção daquele tal de esgoto. Ainda não entendiam porque eles precisavam ocupar logo o espaço que sempre foi deles. “O Rei se gaba tanto da sua grande extensão de terra e agora quer ocupar uma terra desconhecida – e habitada – para construir um esgoto... apenas para impressionar um rei inimigo...?”, alguns calças diziam.

E ele ficou pronto.

E começou a funcionar.

Quando todo aquele líquido sujo começou a chegar, uma criança nativa da vila começou a segui-lo. Aquela poluição caiu no pequeno rio que eles costumavam usar para pegar água. A curiosidade da criança se elevou muito. “Sopa?”, ela pensou. “Sopa!”, ela concluiu. Voltou para a vila espalhando a notícia.

- Os calças curtas estão mandando sopa! Os calças curtas nos mandaram sopa! – ela gritava feliz de porta em porta.

Os moradores ficaram tão animados quanto ela e resolveram se reunir para um grande banquete. Cada um havia enchido uma tigela com o líquido do rio. Tinha um cheiro um tanto quanto peculiar, mas eles não se importaram.

Comeram.

Na manhã seguinte, alguns calças curtas empregados voltaram na vila para ver se tudo tinha ocorrido bem na inauguração da nova rede de esgoto, quando viram toda a pequena população da vila reunida numa grande mesa montada com as mesas de jantar de cada um deles. Todos estavam com os rostos caídos dentro de tigelas de sopa. E não respiravam.

E esta é a história do porque eu não gosto de sopas.

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