Folhas nuas pt. 1
[Eu não sei exatamente o que vem a ser uma folha nua, mas simplesmente me pareceu um bom título. Encaro o termo “folha nua” como uma película transparente e impermeável. Então, no resumo, é como se fosse um raio x do único apartamento em uso do meu prédio. Não é algo interessante, mas é preciso.]
... porque, às vezes, você percebe que a tristeza é triste e sente que não quer isso para si mesmo, mas ela chega de forma tão gentil e acolhedora, como uma mãe. É como aquele comodismo que se assemelha a um tio chato, que teima em nunca ir embora, come da sua comida e acaba com a água quente. Você se incomoda, mas, no final, não consegue fazer nada para impedir. Só que, às vezes, você sente que é tarde demais para deixá-la partir. Ela não é mais apenas um sentimento que preenche um cômodo vazio, ela é você. Você, na prática, não existe mais. Não passa de um vidro de maionese recheado por incertezas e todos os membros de sua família. Apenas como se você estivesse com a cabeça dentro de um aquário com dourados vasculhando os túneis escuros das suas orelhas.
¿Hipnose?
... e isto me remete aos relógios e àqueles que não dão valor ao seu som mecânico usual. Não é bonito menosprezar aqueles milhares de pequenos homens que vivem e trabalham no interior de cada estrutura temporal, revezando turnos e parando de hora em hora para admirar a sinfonia das batidas. Cada tic entorpece. Cada toc traz de volta a realidade. Um sistema muito bem trabalhado na base da hipnose. Vai ver que este é justamente o porquê da maioria detestar o som: se parar para ouvi-lo e começar a aprecia-lo vai acabar colaborando inconscientemente com o estudo aplicado. E, bem, não creio que pessoas gostem de se passar por cobaias. Mas talvez haja recompensa. Carteiros são recompensados com sorrisos e agradecimentos em dias de sol. Talvez seja basicamente a mesma coisa.
O casamento da jovem Mel
... a jovem Mel era classificada como desiludida até o dia em que avistou o jovem magro e torto, dono de simetria facial nítida, mas só captada depois que o processo Cativar se completava. O nome dele era Frank. Eu não sei como, mas os dois acabaram se entusiasmando um pelo outro e, já que era um sentimento novo para ambos, optaram por marcar o casamento para o mais rápido possível. Só que no dia, o noivo, de inseguro, acabou não comparecendo a cerimônia. Boatos dizem que perdeu a hora. Humilhada, Mel se revelou melancolia. Frank, sentindo-se sem uso, se mostrou como fracasso. E foi assim que dona M. mudou-se para o apartamento número 4, localizado na extrema esquerda da via Patética.
Folhas nuas pt. 2
... eu estou triste o tempo todo, mas isto não é de todo mal. Eu tenho tendência a detestar qualquer espécie de mudança/inovação (sendo ela drástica ou não) que vai afetar direta(quem sabe indireta)mente a minha pacata forma de existir. E este é um dos porquês de eu ser adepta fanática a ela. Por comodismo também, claro, mas ser assim não gera (o suficiente para ser absurdo) conflito interno/externo, meridional. A tristeza não gera decepção e isto não é porque ela, tecnicamente, já está catalogada como decepção, mas porque do chão não passa (passa, mas essa já é outra história). Porque a tal senhorita Felícia, a tão desejada senhorita Felícia!, tem a agenda para compromissos tão cheia como a do tio Noel – adicionamos o sêxtuplo de atarefamento e dois quartos a mais de preguiça por ela ter período proletário em todos os dias do ano, sem pausa para lanche/café e nem bônus ou folgas/férias remuneradas (pelo menos não autorizadas pela chefia). E quando a senhorita Felícia nos presenteia com o ar da graça, a honra de sua presença e visita, e sem pedir nada em troca a não ser, talvez, que dona M. tire as pernas e pés do assento porque ela também quer aproveitar o espetáculo, toda a perspectiva muda (mesmo que apenas temporariamente para alguns). Eu não sei se dona M. se satisfaz com a visita surpresa da prima de terceiro grau. Eu não sei como ela reage com todo aquele brilho e contentamento com os raios solares. Eu realmente não sei se a senhorita Felícia se retira porque se cansa da decoração rústica e escassa do lugar e do solo interminável do piano angustiado/melancólico (sorumbático?) que toca lá na vitrola, ou porque “gostaria muito de permanecer e compartilhar mais uma xícara de própolis, mas que tem mesmo mais outros 6.666.666.666 de compromissos para comparecer” ou simplesmente porque dona M. sentiu-se realmente incomodada com a mudança repentina da programação e pediu educada e formalmente “por obséquio, querida parenta, mas tu poderias fazer-me o favor de te retiraste? Se por acaso te levar a porta em algum outro segundo mais tarde, apanharei um resfriado e realmente não tenho comigo o desejo de pedir as filhas de Orgulho para me comprarem mais um estoque anual de ervas medicinais” e, a sempre gentil senhorita Felícia, sentida, retira-se. Mas, às vezes, a inquilina Melancolia sai sorrateiramente de cena pela janela do banheiro, deixando-me cercada por sete demônios. Desconfio que o motivo seja justamente o seguinte: ela tem sangue do meio-irmão nas veias e decide sair por si só para comprar aveia, galões de água, caixas de fósforo, café solúvel, caixas de bolacha, pilhas para o controle da televisão, leite e ração para o bichano no mercado do outro lado da rua. Ela sempre retorna para o seu apartamento mal iluminado no fim das contas. [Arrisco dizer que não é por comodismo, mas sim porque criou sentimentos por mim.]
... eu tenho comigo todo o potencial para ser catalogada como “pessoa socialmente ativa”, mas, in(felizmente), sou inadequada para contatos e contratos externos essenciais ao bem-estar. É evidente que sou inadequada por opção própria... por paranoia ou certeza?, não saberia dizer, só sei que sinto nos ossos. Acho desperdício de tempo tentar me envolver com parte da espécie que terá como único propósito se divertir as minhas custas. Sim, uma das coisas que mais me realiza como ser vivo é ver/sentir que elevei um mínimo sequer da barra de satisfação de alguém, mas sarro não se aplica a esta lei.
... afirmo de cabeça baixa que tudo é minimamente baseado no medo. Sempre há um plano B, ou C, escondido de baixo do tapete, só espiando e torcendo para não precisar entrar em cena. Tudo é semelhante a uma grande peça de teatro. Ou uma entrevista de emprego movida a gaguejos, suor e ânsias de vômito.
... e, às vezes, eu apenas queria ser um dos trabalhadores dos relógios, apenas para me sentir realmente útil em relação as pessoas e ao espaço. Na era do Tempo, quem não vive em função dele mesmo tropeça, fica para trás e se perde. Ou quem sabe eu me escaneie nas páginas em branco de um encadernado de couro e me torne a história de alguém.
... e, no final, é só levar à risca de meu sobrenome e me esconder em minha toca até os predadores partirem. Mesmo que eu seja a maior e mais faminta raposa do bando.
Nada mais suculento do que um coelho apavorado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Olá, pessoa legal. Fique à la volonté para críticas, elogios, dicas, expressar opiniões, seja lá o que você quiser. Não se acanhe. Este espaço aí em baixo é seu e ninguém pode tirar esse direito de você, tá?