Ela não sabia precisamente como chegara até ali, mas tinha completa convicção de que a situação proposta não era fantasia; era real, ela sentia nos ossos. E estremecia.
O capim seco e quase amarelo lhe presenteava com parcelas consideráveis de horror. O que seria o certo a pensar sobre um local onde nem os animais se alimentavam? Não. Seu irmão e o filho de seu tio analisavam a construção ao fundo. Precária não descreveria. Era cercada com grade – talvez tivesse sido eletrificada no passado, mas hoje não passava de arame fácil de modelar, completamente inofensivo.
“Poderíamos entrar”, seu irmão sugeriu, “e verificar”.
“Pode haver corpos”, ela disse. A ideia não lhe parecia de todo mau, sentia atração pelo mistério. Mas não metas o bedelho onde não fores chamado.
“Vocês são covardes”, o primo disse com um sorriso de escárnio.
“Mas Jen tem razão”, o irmão disse enquanto fixava o prédio, “não queremos confusão para o nosso lado, não é?”.
Jen sorriu em seu interior e agradeceu com veemência o bom senso do irmão. Não queria entrar, mas também não pretendia ficar sozinha ali fora.
“... não, Greg, você não vai entrar”.
“Mesmo?”, o primo deu mais um sorriso confiante e deu um passo para trás – um passo mais próximo do prédio, um passo mais longínquo da paciência de Arthur.
“Não arrisque”, Arthur disse, dando um passo a frente, “Não menospreze a minha capacidade de perder o controle, Gregório. Apenas não”.
Quando Jen deu por si, os dois já estavam trocando palavras rudes um com o outro. Sentiu um medo surreal quando o primo pulou a grade e entrou no local abandonado. Sentiu-se boba quando perguntou ao irmão se eles iriam brigar e ele mal se dignou a responder.
Greg retornou com um sorriso e um taco de baseball nos ombros. Arthur vacilou quando o primo jogou o taco por cima da grade e a escalou em seguida. Algo de muito precipitado aconteceria quando aquele carro parou ali. Estava recheado com quatro jovens ricos bêbados, provavelmente sob efeito de entorpecentes. O som estava tão elevado que os poucos vidros que ainda sobravam no prédio sacudiam. Suas frases eram desconexas.
Greg jogou-lhe o celular e mandou-a correr e se esconder e, caso as coisas se apertassem, clamar por ajuda dos suínos fardados. Jen sentiu-se insegura mas foi.
E os garotos saíram cambaleantes do automóvel (um deles segurava uma garrafa cheia) e seguiam cambaleantes na direção deles. Quis fechar os olhos e cantar, mas a curiosidade era maior. Segurava o celular com tanta força que cogitou a possibilidade de ele se partir.
Mas lembrou-se do fato de eles dominarem artes marciais e não demorou muito a ver um quase tatame a sua frente. Os quatro ficaram sóbrios mais rápido do que o comprovado pela ciência e correram de volta ao carro. Prometeram voltar.
Jen correu até os irmãos e achou estranho quando não viu um singelo vestígio sequer do carro, nem os pedaços de vidro da garrafa estilhaçada, nem o taco de baseball e nem os dois sorrindo com a situação. Apenas ouviu algo conhecido.
“... não, Greg, você não vai entrar”.
Ela sentiu o pânico se aproximando e não pôde fazer nada para afastá-lo. Pensou na possibilidade de estar presa em alguma dobra de tempo, mas chegou a simples conclusão de que, provavelmente, havia tido uma espécie de... premonição?
Prometeram voltar.
“Temos que sair daqui”, ela pensou.
Impediu Greg de ir até o prédio. Ele quis passar e iria se tornar ignorante, mas quando viu o desespero nos olhos de Jen, desistiu. Foram até Arthur, que exigiu uma explicação, e correram.
Chegaram a um local isolado, onde só havia um pequeno ponto de comércio beira de estrada. Viram um homem levando uma latinha até a boca. Ele os encarava curiosamente e por vezes dava olhadas rápidas a um ônibus aberto. Os três pensaram em uníssono e o homem só teve tempo de se levantar do apertado banco de madeira, tirar a lata da boca e puxar fios de cabelo ao ouvir o “vamos devolver!” de Greg.
Nenhum dos três tinha uma vaga ideia de como pilotar um ônibus, mas conseguiram quando viram o homem falando algo desesperadamente em um telefone. Jen sentia-se mais calma, mas ainda sim apreensiva. Optou por sentar-se nos bancos do fundo para ouvir as risadas calmas e as frases sobre sua loucura repentina. Queria dormir. Encostou seu rosto a janela e sentiu seu coração parar quando reconheceu o conversível e os quatro bêbados passando em alta velocidade ao lado deles.
Prometeram voltar.
Jen fechou os olhos rápido demais.
O medo foi gentil de lhe deu um sopro de sonolência. Dormiu.
Quando despertou, percebeu que o ônibus estava parado num lugar com pouca claridade. Não. Era noite. Levantou-se de sua poltrona e saiu batendo os joelhos nas outras. O ônibus estava aberto. Ela viu um beco escuro a sua frente. O irmão e Greg não deram nenhuma espécie de sinal de vida. Sentiu-se apreensiva novamente.
Prometeram voltar.
Voltaram?
Jen decidiu procura-los; pulou as escadas e sentiu um baque violento ao tocar os pés no chão. Não viu nada nem ninguém em nenhum dos lados. Olhou receosa para o beco. Tinha que arriscar.
A passos urgentes mergulhou no breu. Sua única companhia era a luz da lua cheia. Depois de sua própria respiração ritmada, o som das goteiras era o único. Chegou a uma pequena curva e sentiu a incerteza pairando em sua mente quando viu duas sombras desiguais mais a frente.
Avançou vacilante e tudo o que ouviu depois foi seu próprio grito de pavor cortando o silêncio da noite. Ali, duas meninas de sua idade. Tão pálidas quanto um cadáver. As pequenas veias roxas a mostra na pele de mármore. Nuas. De olhos esbugalhados e fixos, boca escancarada de forma geométrica. Cortes fundos no pescoço, presas por uma corda na parede. Mortas.
Seu irmão chegou na companhia de Greg e ambos ficaram extasiados e sem ação ao se depararem com a cena. Foi necessário muito esforço para realizarem uma ligação.
Jen já havia parado de tremer e terminava seu chá gelado quando a polícia chegou. Não perguntaram nada sobre o ônibus e foram direto ver as garotas. Jen não foi, ainda não estava recuperada por completo.
Mas ela não soube o que sentiu quando ouviu um dos policiais conversando com Arthur. “Tem esse grupo que começou com esses... ataques no último mês. Sempre recebemos ligações anônimas ou de pessoas que as... encontram.” O homem parecia incomodado em dizer aquilo. “Não fazemos ideia de quem são esses doentes. Investigamos placas de conversíveis... mas não chegamos a lugar nenhum.”
Grupo. Ataques. Conversível.
Os olhos fecharam, o coração pesou.
O copo de chá caiu.
A visão da tarde havia sido um alerta.
As garotas estavam mortas por sua causa.
Oh, céus, ela entendera tudo errado. Tudo.
Quando Jen gritou, sentiu que o ar frio da noite havia sido substituído. Abriu os olhos e viu uma antiga cena conhecida.
“... você não vai entrar.”
Greg distanciou-se, pulou a grade, sumiu. Arthur estava tenso. Jen correu.
“Nós precisamos sair daqui”, começara a chorar.
“Não, Jen, não precisamos. Não vamos.”
“Não, Arthur! Você precisa vir comigo...! Algo de muito ruim vai acontecer... Precisamos chamar a polícia...!”
E de repente Jen viu o irmão vacilar e cair em cima dela, sem o mínimo resquício de força para manter-se em pé. Greg segurava o taco de baseball aturdido, como se não acreditasse no que tinha acabado de fazer. Arthur sangrava.
Os últimos traços de esperança e força de Jen se foram quando o conversível parou na estrada. Sentia-se desesperada. Greg estava chamando o nome de Arthur, xingando-se mentalmente por ter agido por impulso. Ele estava com a guarda baixa.
Jen quis fugir.
Fechou os olhos e desejou com todas suas forças acordar.
“Por favor, só mais uma vez...”.
Mas desta vez era real.
Ela sentia nos ossos.
~
O conto acima foi baseado no sonho de minha colega de aventura Jasmine. Não ficou com toda a emoção que ela passou quando me contou, mas até que se transformou numa adaptação ~literária~ agradável - pelo menos aos meus olhos. Jasmine tem essas fantasias interessantes com frequência mas dois fatores impedem a excelência destes: 1) 49% não terminam com um final finalizado; 2) provavelmente ela se esquece dos outros 49%; 3) os outros 2% são compartilhados para o agrado geral da nação. Talvez eu crie uma tag relacionada só a ela. Na verdade, este texto terá essa tag. Não tenho nada concreto até agora mas espero criar algo no mínimo fiel a imagem dela, sim.
Saindo totalmente do meu princípio fundamental de jamais, em hipótese alguma revelar a idade, vou lhes dizer que meu aniversário foi no sábado, dia trinta. Um diazinho medíocre como todos os outros, mais medíocre ainda a partir do momento em que percebi que “dezesseis” soava pesado demais. E isso não só porque sofro de aguda síndrome Peter Pan mas porque a palavra é, no geral, pesada. “Olha, me vê aí dezesseis pães de queijo, o segundo múltiplo de oito de quilogramas de salmão e uma dezena mais seis de ovos, por favor, seu Manuel”. Viu? Pesado.
Uma das, se não a mais, frases mais famosas de Sócrates define minha vida em escala astronáutica. Às vezes eu sei, sim, muito bem o que sei, o que penso e o que desejo, mas a indecisão é como esse vampiro que tem o poder de persuasão tão alto que chega a ser improvável de tão impossível rejeitar o pedido de “posso entrar em sua residência, mademoiselle?”. Chego a desconfiar que a real complicação não é a indecisão e sim o medo. “Hoje foi um desses dias em que despertei com o simples propósito de segurar o rosto e pensar. Pensar no propósito mínimo”, eu disse há quase dois meses atrás. Não consigo me lembrar qual foi o acontecimento que conseguiu me deixar assim mas provavelmente foi algo catalogado como insignificante.
Sábado foi um desses dias, apesar de tudo.
Mergulhei de corpo e alma em meu aconchego camal, localizado na parede em frente a porta de meu covil, também conhecido como Forninho, na sexta à noite. Com um frio na barriga desgraçado – desses que você sente quando acha que algo de muito horroroso está para acontecer. Como se a minha pessoa (de três realidades alternativas) decidisse praticar esportes radicais ao mesmo tempo. Cheguei a cogitar a possibilidade de passar a noite em claro pela primeira vez na vida em razão da cota de ansiedade alta e também pela personificação dos pensamentos dos paranoicos – corvos. Estes bicando-me, divertidos, em todas as minhas extremidades. E tudo isto pelo simples fato de ser meu aniversário no dia seguinte. Tantas expectativas. Tantas.
O melhor acontecimento da minha manhã foi o abraço de minha mãe. Não acho que seja novidade para a maioria de que eu chego a desprezar um pouco contato físico, mas abraço meus pais, minha irmã, Lulu e Leo pelo menos uma vez ao dia para poder viver mais. Foi uma cena até engraçada. Ela sabia que aquilo não iria agradar, mas mesmo assim deu um sorriso largo, daqueles que ela dá quando diz “adivinhe a peripécia que aprontei hoje”, sabe. Depois ela saiu para comprar os ingredientes para meu bolo, assim como uma vela 6.
Não fotografamos o parabéns mas tenho a foto do bolo da minha irmã, que aniversariou no dia vinte e quatro (o que eu acho fascinante é que ela “roubou” meu útero, meus pais, minha família e genética, minha casa, meus animais, futuramente meu quarto e minha segunda cama reservada e ainda teve a audácia suprema de nascer seis dias antes de mim, brilhante), que foi do mesmo sabor. Baunilha, chocolate e granulados por cima e morangos cortados ao meio para decorar.
Claro que me senti bem ao ler as mensagens de parabéns e tudo o mais, mas tudo não passou de uma demonstração seguidora de protocolos sociais e tudo o mais. Claro que eu considerei, mas mesmo assim... E repito: Sócrates define.
Às vezes tenho essa certeza convicta de que cursarei Filosofia e Física ao mesmo tempo, nesse meio tempo terei algum conto reconhecido e serei reconhecida... Poucos leitores, porém fiéis leitores – e a fidelidade é essencial. Depois me formarei em Química e começarei a entender as coisas que sempre quis. Talvez eu não more com gatos e sim com um companheiro de aventuras (obs: colega e companheiro são definições diferentes) gentil. Talvez eu tenha esse emprego fixo mas que não será considerado exatamente um “emprego” pois quando a gente faz o que gosta não é trabalho. (Se bem que foi uma mulher na minha sala num dia desses para trás e disse que ter facilidade em algo, gostar de algo e trabalhar em algo são conceitos totalmente diferentes. Isto me fez pensar muitíssimo.) Minha existência não passa de um bolo obtuso tentando imitar o sabor da baunilha mas que não passa de uma broinha simples recheada por talvezes.
Porque eu era super ansiosa para completar dezesseis anos quando tinha doze mas agora tenho medo do meio do ano. Não vou dizer que daria qualquer coisa para voltar ao passado porque seria uma mentira das bem grotescas mesmo. Não, não vou voltar, não faria o menor sentido. Voltar para qual propósito? Não repetir os erros do passado e esquecer todo o meu presente composto por peças de Lego (trabalho ainda em desenvolvimento mas sendo cuidadosamente equilibrado com todo o capricho e fé possível)? Oh, não, nunca. Que ideia chata.
Mas, bem, ora, pois, pois, não sei mais que bulhufas estou escrevendo. No mais: tenha uma semana maravilhosa. E obrigada.
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