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Esses dias, cara, esses dias

Hoje foi um desses dias em que despertei com o simples propósito e anseio de segurar o rosto e pensar. Pensar no propósito mínimo – fica, entre divertido e irônico, observando aquele curioso painel humano e organizando um pensamento sobre estas sociedades tropicais, que passam da barbárie para a decadência sem a etapa intermediária da civilização”. Nesse processo lento e detalhado, as lembranças começam a desabrochar também, chegando ao lanche simples no quintal vestidas à rigor. E percebi o quanto fui e o quanto sou covarde. Não apenas medo, horror. Em tentar, em mudanças, em novidades. Hipocondríaco se afogando em seus fracassos e temores mais escondidos porque seus remédios desistiram devido ao pessimismo excessivo. “Afraid to live, but without courage to die”. Escritor brilhante sem máquina de escrever – sem a capacidade de transcrever a ideia para o papel. “If God wanted us to be brave, why did He give us legs?”. Alguém sente o desespero mas não consegue se envolver – “an SEP is something that we can’t see, or don’t see, or our brain doesn’t let us see, because we think that it’s somebody else’s problem”. Um poeta sem amor. Uma jovem com medo do futuro.

Esqueço. Guardo a sete chaves. 
As lembranças nunca voltaram. 
Nada aconteceu.
 
"I have memories but only a fool stores his past in the future.

Sobre o porquê eu não gosto de sopas

Era uma vez uma vila pacífica e comunitária na borda de uma floresta sábia. Os moradores eram pessoas pequenas de cabelos encaracolados e grandes olhos curiosos. Tratavam-se como iguais e sabiam os limites do outro. Eram pontuais e “desperdício” era uma palavra desconhecida em seu vocabulário. No resumo, eram pessoas inacreditavelmente agradáveis. Ah, e também eram gentis até mandá-los parar. Gostavam de beber chá com mel tomando os restos finais do sol, comer pão com mel, tomar leite com mel e idolatravam bicicletas, assim como o mel. E sopas.

Porém, certa coisa curiosa aconteceu uma vez. Um homem de nariz arrebitado para o céu e um pesado ar de superior apareceu na vila de calças curtas. Logo de início, os moradores ficaram fascinados com aquele estranho. Ora, ele tinha roupas da cor do mel! Ora, ele tinha roupas! E uma pequena discussão se iniciou para saber quem iria preparar o chá, quem iria adicionar o mel e cortar o pão, quem iria colher os ingredientes para a sopa...

Enquanto isso, o estranho olhava para as pessoas pequenas de olhos arregalados. Eles estavam nus!

- Parem com esta balbúrdia! – ele gritou.

Os moradores se calaram e olharam o estranho homem.

Estória do porque você não deve comprar livros se pretende deixá-los viver por conta própria

“João. João Silva.”

Sim, realmente um nome simples e comum, mas João gostava. Gostava porque era o nome dele, ora. E mesmo que existam mais três bilhões de João Silva por aí, não fazerá diferença na vida do nosso João porque ele é único. Bem, pelo menos foi isso que ele aprendeu na escola. Não se lembrava de ter frequentado a escola, nem de ouvir ninguém falando sobre isso; ele apenas se lembrava de saber, se lembrava de lembrar.

João também não se lembrava da sensação de ter passado no vestibular e ter se formado em Neurologia. Nem de como conheceu sua noiva e seu melhor amigo, nem de como tinha largado o vício do ócio. Muito menos de onde aprendera esgrima. E Shiatsu. Às vezes ele tentava imaginar como fora o choque exato ao saber da morte do pai naquele acidente de carro... mas tudo o que conseguia imaginar era um grande muro branco com o desenho de um inseto — e que inseto pavoroso era aquele ali, pintado com tinta preta no muro? Também queria saber quando fora a primeira vez que cantara a música “Every Sperm Is Sacred”.

O caso é que João estava tendo pesadelos diários há três dias, semanas, meses, anos? Ele não se lembrava ele era exatamente, mas, sempre que tentava se lembrar, sentia certo receio. João era um homem corajoso. Se algo o dava receio era porque era algo gravíssimo. Laura, sua noiva, e Luízio, seu amigo, também estavam preocupados — tinham os mesmos pesadelos com frequência, mas tinham vergonha de admitir. E se também estivessem ficando loucos?