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poema da viagem rodoviária

duas almas se encontram
entre o nível entre a terra e o céu
e o diálogo completa e
as transforma em boas amigas

separadas são pela salvação.


ou esquecimento?
 

Das reticências

linha separatória
portões entreabertos.
o tremor ansioso que habita
a comissura dos teus lábios
me desassossega.

O esboço ou a "galáxia dos geradores de mentiras"

- Amigo, vamos combinar de nos entorpecer um dia desses?
- Entorpecer?
- É, nos drogar com as lícitas! Inflamar os nossos corpos e dar adeus ao juízo moral. Fazer o que em nossa juventude éramos loucos para fazer, e que fazíamos do mesmo jeito porque o proibido é sempre mais atraente. O que, quando nos mudamos para fazer faculdade, nossas mães imploravam para não abusarmos. O que nossas esposas e filhos detestam que façamos, alegando que ficamos irreconhecíveis depois de seu uso!
- Você está me convidando para beber?
- É, tomar uns drinques, entornar as garrafas. Qualquer dia desses! Vamos filosofar na mesa externa de um barzinho. Dizer o que não temos coragem de dizer quando estamos sóbrios e seguindo o bando. Até cantar aquela mulher que faz o nosso tipo porque teremos uma desculpa palpável para as nossas ações. Também poderemos colocar as nossas emoções e frustrações para fora, coisas que não temos o direito de fazer em sã consciência, pois o gênero não permite... E, é claro, brigar à vontade com todos e alegar amnésia no dia seguinte. Essa desculpa sempre funciona, não é?
- Meu amigo... posso pensar na sua proposta e lhe dar uma resposta depois?
- Tem certeza? Corremos o risco de não nos encontrarmos novamente.
- Eu tenho o seu telefone anotado na minha caderneta.
- Então tudo bem. Até mais ver.
- Falou.

Outono

viu ali uma desculpa para as suas lágrimas
quando pétalas de flores e
libélulas
começaram a voar sobre a rua.
"é tão bonito", ela diz.
os outros achavam graça;
ela sentia alívio. 

Eu sou ótima

Ela para em frente ao portão e observa sem curiosidade as folhas sendo levadas pelo vento. Leva as mãos à boca e sopra-as com a intenção de esquentá-las. Fecha os olhos e o seu rosto fica paralisado em uma expressão de dor profunda por poucos segundos. Então, recupera-se e põe os pés dentro do cemitério onde seus irmãos estão enterrados.

A garota do panfleto de lanchonete

Ele literalmente pensa em reticências enquanto passa a mão pelo cabelo, e pisca os olhos como se não tivesse a intenção de abri-los novamente. Quando o faz, encara a pasta em seu pen drive onde estão todos os seus projetos inacabados. Segura o rosto com a mão enquanto rola a barra lateral da página, lendo cada título e a última vez em que cada arquivo foi alterado.

Um minuto atrás. Cinco horas atrás. Três semanas atrás. 

Quatro anos.

Senta-se ereto na cadeira e encara o arquivo mais antigo com uma sensação apreensiva no peito. Isto acontece todas as noites desde os últimos quatro anos.

Ele abre o arquivo e fecha os olhos, respirando o mais fundo que pode antes de prender a respiração e ler as poucas linhas.