Pare! O que vem a seguir é uma compilação longa composta pela junção de seis mil novecentas e quarenta quatro palavras sobre um assunto beirando a ficção científica e baseando-se um pouquinho num dos livros mais conhecidos do mestre King, mas, que ao mesmo tempo, chega a ser extremamente deprimente. São muitas informações em pouco espaço, são parágrafos longos que vão fazer você se perder. Não é um texto que vai acrescentar conteúdo filosófico e discutível a sua vida, não é algo útil. Se mesmo assim pretende ler, boa sorte e boa sorte com esta porta.
“Eu não sabia exatamente o que acontecia naquele laboratório; sim, agora tinha plena capacidade/consciência de como distinguir as estruturas/formas. Por ora estava presa em uma espécie de tubo de ensaio gigante – ou suficientemente espaçoso para não elevar meu percentual claustrofóbico.
‘Oh!’, exclamei em meus pensamentos, admirada com a série elaborada de palavras que formulei com perceptível facilidade. Porém, não fazia ideia de como emitir o mais singelo som. ‘Patético’, pensei refletindo sobre o significado inquilino.
Apesar de estar com a sensação térmica abaixo do convencional e iluminada apenas com uma fraca, que ao mesmo tempo cegava se encarada por muito tempo, luminosidade esverdeada, não temia a escuridão. Algo transparente confortava-me como sorriso de progenitora racional. (Ao formular estas palavras, uma face velha contorcida em pavor passou sem deixar qualquer impressão a não ser uma pequena curiosidade dissolvida em questão-padrão.)
O som que chegou aos meus ouvidos era bastante abafado, mas mesmo assim consegui distinguir os passos humanos. Quando ‘carne fresca’ chegou ao processador central, uma série de acontecimentos simultâneos começaram.” A coluna se dobrou, o pescoço inclinou-se para frente com o objetivo de favorecer o olfato e a visão, dedos inferiores fixados a superfície escorregadia, calcanhares preparados para correr, ponta dos dedos superiores encostados no vidro frio; respiração acelerada causando neblina parcial no mesmo.
“’Instinto... sobrevivência.’
A respiração vagarosa e os passos elegantes chegaram até minhas narinas como um convite indiscreto para a falta de pudor. Não sabia ao certo o que todos aqueles sentidos aguçados e prontos para o ataque significavam na verdade geral. Sentia-me apenas preparada — como se este ofício sempre tivesse atuado como meu único propósito lógico nos últimos tempos.
Então ele se aproximou. Sentia-o parado ali, no exterior, como se me observasse perfeitamente bem apesar da ausência luminosa que predominava no local.”
A frota de saliva cresceu significativamente no interior dos lábios quando o cheiro pareceu ultrapassar o vidro. Ela queria sair.
“De repente uma claridade questionável invadiu e preencheu cada lacuna com quaisquer vestígio sequer de escuridão. Mas não desviei a visão do que também me encarava. Era de tamanho mediano, beirando a pequenez. Negro como a noite, dono de glóbulos oculares atentos, sábios e amarelos. Por um momento minha presa não se encaixou nas minhas expectativas. Parecia inadequado.
A frota de saliva cresceu significativamente no interior dos lábios quando o cheiro pareceu ultrapassar o vidro. Ela queria sair.
“De repente uma claridade questionável invadiu e preencheu cada lacuna com quaisquer vestígio sequer de escuridão. Mas não desviei a visão do que também me encarava. Era de tamanho mediano, beirando a pequenez. Negro como a noite, dono de glóbulos oculares atentos, sábios e amarelos. Por um momento minha presa não se encaixou nas minhas expectativas. Parecia inadequado.
‘Santo DEUS!’, ouço. Não desvio o olhar.
Mãos perfeitamente iguais as minhas tiram o 'animal' do local. Ergo a cabeça e encontro uma estrutura física idêntica a que vi no reflexo do vidro quando o 'felino' foi levado. O igual usava uma espécie de vidro preso a um metal sobre os olhos. Parecia um auxiliar para visão.
Seu olhar se assemelhava perfeitamente a um eclipse; as pupilas dilatadas quase conseguiam esconder o fundo verde. Levou a trêmula mão esquerda até a boca, tapando-a. ‘Você está viva’, o rapaz disse, ‘Você voltou’. Colocou as palmas sobre as minhas pelo vidro. Retirei-as. ‘Santo Deus, Be...’, interrompeu-se, ‘... é você?’.
Continuei encarando-o de volta sem titubear — afinal, por qual motivo deveria constranger-me? Não parecia evidente. Mas o homem mostrava ter algo sério contra contato visual demorado. Tirou as mãos do vidro e levou o indicador direito aos olhos e virou-se depressa. Foi a passos rápidos para um lugar específico como se conhecesse muito bem o local. Tira uma caixa aberta de donuts velhos de um armário, puxa a única cadeira de todo o laboratório (que anteriormente encontrava-se em frente à mesa que tinha companhia única de um microcomputador, uma lata encapada com papel recheado de desenhos infantis em giz de cera e um porta-retratos foi virado) e senta-se, mal acreditando no que vê.
Senti-me como um animal silvestre raro enjaulado, pronto para a exposição. Mas ao mesmo tempo não o temia, era indefeso.
Olhou para o lado e o segui. Ali um pequeno botão. Pela primeira vez vi verdadeira confusão mental em seus olhos claros. Perguntei-me se aquilo me libertaria. Bati no vidro querendo chamar sua atenção. Queria sair, precisava caçar.
Ignorou-me completamente e repousou a caixa de papel branca em outra mesa. Levantou-se e foi até uma máquina. Voltou com uma caneca nos lábios, as mãos ainda tremiam. Bati no vidro com mais força.
‘Desculpe, mas não posso lhe tirar daí’, encarou-me, ‘Sinto muito’. As minhas batidas, antes produzidas com a ponta dos dedos, aumentaram quando comecei a bater com os pulsos. Ele se mostrava desesperado.
Muito tempo se passou até que eu percebesse que meus esforços eram completamente em vão.
‘Se acalmou?... ah! Não me olhe assim. Realmente não posso tirá-la daí de dentro. Apesar de eu ter muita certeza de que aquilo tenha dado certo, sei que não posso controlá-la se você... se alterar... sabe? Desculpe.’
Ficou o tempo todo me encarando. Cansei e optei por me sentar. ‘Então você não vai falar, não é?... espere... acho que não pode falar... Mas sinto que entende tudo o que falo. Verdade?... não vai falar nada...? Não fique assim. Minha força física não é confiável como a sua... você, você está com fome?’, balancei a cabeça afirmativamente. ‘Infelizmente não tenho nada para voc... Não! Você não pode comer o meu gato. Ele é a única companhia que tenho tido durante um longo tempo. Não abriria mão dele nem por vo... nem por uma experiência completamente experimental bem sucedida. Desculpe. Eu sei que deveria ter capturado algum animal antes de fazer isso, mas francamente! Quais eram as possibilidades confiáveis disto dar certo? Como eu poderia saber que funcionaria? Mas tenho metade de um donut, quer?’. Estendeu o pequeno bolo em minha direção e o cheiro nauseabundo deixou-me enjoada. ‘Sim, mas é claro. Como todo um sistema modificado, alterado cirurgicamente para apenas se alimentar de carne animal ou geneticamente modificada se interessaria por... açúcar?’, seu riso transbordava nervosismo.
Bati no vidro novamente. ‘Ei! Acalme-se! Essa coisa de alteração cirúrgica, é?... é uma coisinha engraçada... O essencial é que o governo duvidou gravemente do poder científico mais uma vez. A inteligência governamental sempre foi boçal a meu ver, mas conseguiu alcançar a estupidez em seu mais alto patamar há três anos e meio. Chegaram rapidamente à decisão de que... uma máquina humana com a única intenção de ferir e matar seus iguais seria a resposta para todos os problemas relacionados a falta de respeito. Uma lobotomia admirável, tenho que admitir, mas sem um propósito muito bem resolvido. Quantos mortos até chegarem a um resultado final... Queriam uma forma mais rápida e eficiente para extermínio de indesejados pelo estado, e também da opinião desaprovadora geral. A pessoa sumiria sem deixar o mínimo de vestígio do por que. Todos os fatores positivos para aquele protótipo dar absurdamente errado mostravam-se otimistas, mas tudo deu perfeitamente certo. Nos primeiros seis meses. O sucesso deles era formado de basicamente todo ódio que o ser humano pode carregar em si mesmo, uma arma biológica natural que só precisou de um empurrãozinho, sabe?... As equipes jornalísticas, os noticiários mundiais mergulharam de cabeça no colapso geral momentâneo. O que estava acontecendo? Abdução extraterrestre? Como os pacientes da ‘fila da morte’ estavam desaparecendo? Uma nova Alcatraz*? Por que os noticiários só mostravam notícias relacionadas ao esporte e escândalos políticos/financeiros? Onde estava a desordem violenta que a raça humana tanto admirava?’”, sorriu.
Estava relatando com detalhes história moderna para um erro que deu certo, mas continuou ao captar curiosidade no olhar.
“’Não se sabe exatamente como o caos finalmente apareceu. A mais forte suspeita caiu sobre os estudantes de jornalismo que visitaram um laboratório nuclear quando houve outro 'ataque' e, como não sabiam de nada, acabaram carregando o vírus, exposto a sabe-se lá quantas modificações naturais. Assim ele teve, talvez, o primeiro contato com humano e pode-se manifestar, estabilizar uma 'base' e provavelmente se criou, modificou e começou a agir. Outros afirmam que o ‘monstro’ ocultou sua racionalidade e armou um plano ‘maligno’ de dominação mundial, o que com certeza é fruto de mentes imaginativas. Já eu acho que o vírus sempre esteve presente, mas não se ativava porque... ninguém conseguia escapar do original para o vírus ter contato direto com outros, como no caso de Cerda e James... mas, na verdade, não faço ideia’, eu soube que ele mentia quando desviou o olhar. ‘Hoje vivemos em tempos de guerra. Quase metade da população está infectada. O ódio e o canibalismo juntos. Chegam ao ponto de apagar conscientemente toda sua habilidade/capacidade racional apenas para aguçar os sentidos e tornarem-se máquinas de caça, afinal essa é a única coisa que eles acham que sabem e devem fazer. Ninguém mais sai de casa. Não existe local seguro. Milhares são mortos ou infectados a cada dia. Ninguém é confiável...’, levou a mão a boca e olhou para algo fixo no teto.
Estava relatando com detalhes história moderna para um erro que deu certo, mas continuou ao captar curiosidade no olhar.
“’Não se sabe exatamente como o caos finalmente apareceu. A mais forte suspeita caiu sobre os estudantes de jornalismo que visitaram um laboratório nuclear quando houve outro 'ataque' e, como não sabiam de nada, acabaram carregando o vírus, exposto a sabe-se lá quantas modificações naturais. Assim ele teve, talvez, o primeiro contato com humano e pode-se manifestar, estabilizar uma 'base' e provavelmente se criou, modificou e começou a agir. Outros afirmam que o ‘monstro’ ocultou sua racionalidade e armou um plano ‘maligno’ de dominação mundial, o que com certeza é fruto de mentes imaginativas. Já eu acho que o vírus sempre esteve presente, mas não se ativava porque... ninguém conseguia escapar do original para o vírus ter contato direto com outros, como no caso de Cerda e James... mas, na verdade, não faço ideia’, eu soube que ele mentia quando desviou o olhar. ‘Hoje vivemos em tempos de guerra. Quase metade da população está infectada. O ódio e o canibalismo juntos. Chegam ao ponto de apagar conscientemente toda sua habilidade/capacidade racional apenas para aguçar os sentidos e tornarem-se máquinas de caça, afinal essa é a única coisa que eles acham que sabem e devem fazer. Ninguém mais sai de casa. Não existe local seguro. Milhares são mortos ou infectados a cada dia. Ninguém é confiável...’, levou a mão a boca e olhou para algo fixo no teto.
‘A gente nunca para pra pensar, mas isso é realmente uma merda. ‘Ninguém’ sabe como aconteceu, todos ainda ficam esperançosos ao ver televisão e ouvir que seus representantes e soldados estão fazendo o impossível para acabar com essa situação, para salvar o povo, o mundo. Eu, particularmente, acho que estão criando alguma estratégia para uma nova base secreta, escondida e impenetrável. Não, um plano de escape para um asteroide. Qualquer coisa segura. Sempre pensando no bem do povo, esses santos. Sabe? Se eles não tivessem tido esta bendita ideia genial e revolucionária, eu não teria visto Isabella sendo atacada. Não teria visto Isabella transformando-se em um monstro sujo, não a teria visto matando sua mãe e sua irmãzinha. Não a teria visto tentando de tudo para me pegar também... Não teria sido preso nesta base e afastado de minha refugiada família apenas para dar um jeito na situação, consertar o meu erro inicial’. Bati com a ponta do indicador no vidro na esperança que ele entendesse o porquê. ‘Que foi...? Ah...? ‘Consertar o meu erro inicial’, é?’, ele sorriu tímido quando fiz sinal positivo com a cabeça. ‘Bem, digamos que os grandes sempre ficaram de olho em mim. ‘Pete é uma criança perigosa’, eles diziam, ‘fique de olho, sempre alerta, é um Watson’. Apenas porque me excedia um pouco em ciências e tinha uma admiração não tão comum pelo processador central. Talvez porque matei acidentalmente meu presente de aniversário, um hamster, ao abrir sua cabecinha e explorar. Ora, por que não? Qualquer indivíduo de treze anos pode fazer uma coisa dessas. Não se ele fosse filho de um presidiário internado há mais de dez anos numa clínica para loucos em potencial. Meu pai... meu pai não soube aproveitar as chances que lhe foram dadas. Pessoas cometem erros, pessoas cometem erros pelo bem maior, ele não foi exceção. E sim, ele era louco, santo Deus, era completamente insano. Mas os superiores confiaram em sua capacidade para criar a solução. Oh, Deus, sim, ele era completamente insano. Mas era humano e vingativo. E, bem, por que não trancar a frágil vovó, o pequeno Richard’, ele dirigiu olhar para a lata com desenhos infantis, ‘e a fraca mãe do jovem e brilhante Peter num local seguro? Apenas um incentivo para ele não falhar como o pai. Vamos, dê um jeito, lhe cederemos corpos e ajuda. Apenas faça. Faça rápido. Não é pressão psicológica, muito pelo contrário. Só queremos que sua família fique a salvo.'
Ele colocou os pés sobre a cadeira e a cabeça entre as pernas. Não sabia exatamente o que era aquilo que ele sentia, mas não era algo que eu classificaria como bom. Toquei o vidro. ‘... você veio de tão boa vontade’, ele começou a dizer. ‘Eu... eu saí daqui. Saí porque queria ter o azar de encontrar algum infectado, ‘zumbi’. E encontrei você’, encarou-me como se estivesse lembrando-se do acontecido. ‘Você estava embaixo de uma árvore, dormindo. Fiquei preocupado, você ali? Há poucos metros da base? Como saiu de Sain... como saiu de qualquer que fosse a cidade para chegar até ali, tão perto? Foi como se estivesse me procurando. Não soube exatamente o que fazer, mas carreguei você até aqui. Passei pelos ‘seguranças’ sem nenhuma espécie de problema, apenas disse que era ‘a cobaia perfeita para um teste com potencial’ e... bem. Você acordou rápido. Não tive medo, sentia que eu estava pronto para qualquer coisa. Mas, ao contrário do que imaginei, você não me atacou, suas pupilas não dilataram, não grunhiu, nem... nada. Era como se estivesse cansada, recuperando a consciência... ou machucada. E você realmente estava. Você tinha uma... mordida?, do lado esquerdo do tórax. Uma coisa realmente feia. Como se você e outro tivessem brigado por comida... e você saiu no prejuízo. De alguma forma o contato entre vocês deixou o seu corpo fraco e vulnerável, quase como se... fosse um ponto fraco. E disso veio a ideia básica. E, francamente, deu certo!’. Eu sorri. Peter corou. Tentei formular sons, mas expeli apenas o vazio. Ele percebeu.
‘Vê? Não é como se você não soubesse ou pudesse falar. O outro... vírus. Está dominando você apesar de ser idêntico ao seu original. Então... o seu sistema está combatendo o ‘intruso’ mesmo que você seja o ‘intruso’ e uma vez que o ‘intruso’ está por todo lado... bem’. Aquela coisa que muitos chamam de felicidade momentânea desapareceu. ‘Você está sendo ‘paralisada’ aos poucos, cada órgão, cada célula... tudo. Você... você está morrendo. Sinto muito’, levantou-se da cadeira e colocou-a em seu lugar original. Fechei os olhos. ‘Queria poder fazer alguma coisa, mas... é...’, pude perceber que ele sentia certa dificuldade em completar, ‘... impossível reverter uma vez que o processo é iniciado Eu... eu poderia criar um antibiótico temporário que retardaria um pouco o processo, mas de que adiantaria?’, deu um sorriso triste e tirou a caneca do rosto. ‘Realmente sinto muito por isso’, disse. ‘Eu daria minha vida para salvá-la. Juro’. E saiu.
Tive terríveis pensamentos depois da saída repentina de Peter. Há pouco tempo atrás mal sabia quem ou o que eu era, do que se tratava a minha existência. E agora tinha em mãos informação o suficiente para escrever uma autobiografia de oitocentas páginas. Não o odiava por me contar a verdade. Às vezes só se necessita de uma dose de falta de esperança para perceber que não há escapatória da realidade. Mas... eu não estava assustada. Não tinha motivos para isso, não é? Eu não passava de um outro duas vezes modificado preenchendo espaço. Não me lembrava de quem eu era, das memórias/lembranças que colecionei antes do caos, as pessoas que matei apenas por desejo. Do dia que deixei de ser humana. Nada. A mesma sensação de ser um fantasma esquecido pelo tempo, uma lápide sem flores. Eu poderia ter sido qualquer coisa. Mas não faço ideia de nada. Ele disse... ele disse ‘chegam ao ponto de apagar conscientemente toda sua habilidade/capacidade racional’. No final é tudo escolha própria, mesmo o involuntário.
Senti o cheiro do felino antes mesmo que ele ultrapasse a porta de entrada. Diferente do que aconteceu anteriormente, não senti desejo algum de quebrar o que me cercava e devorá-lo como se nunca tivesse posto um pedaço de carne na boca. Não senti vontade de absolutamente nada. Na verdade, eu me sentia doente.
O animal parou em frente ao vidro e me encarou da mesma forma anterior. Aparentava não confiar em mim.
‘Ei, por que está assim?’, Peter perguntou. Carregava algo enrolado embaixo do braço, um travesseiro e um lençol. Colocou-os em qualquer lugar e veio até mim. ‘Oh, meu Deus, Bell...! Sente-se bem?!’, ele perguntou. Queria responder que não, estava perfeitamente bem, só conformada. ‘Parece que está ardendo em febre... meu Deus...’, encarei o botão também e balancei a cabeça negativamente. Não queria sair. Tinha medo de feri-lo. ‘Confio em você’, ele disse. Eu não, pensei. Leu o ‘não’ em meus lábios e contentou-se em apenas me olhar.
Pensava no porquê de ele agir como se me conhecesse há um longo tempo quando ele puxou a mesma cadeira e colocou-a na minha frente. ‘Desculpe se às vezes ameaço chamá-la de Bella, mas vocês são muito parecidas’, sorriu. Sorri. Eram memórias boas para ele. Desejei ter memórias. ‘Ela era minha melhor amiga. Eu... eu realmente gostava dela. Ela nunca perguntava nada, não se interessava em saber por que os automóveis caros e escuros viviam parados em frente a minha casa. Era meu ponto de paz... sabe? Como uma válvula de escape da realidade. Ouvindo assim parece egoísta, mas não é. Não precisávamos de palavras, apenas a presença um do outro era o necessário e suficiente. Exatamente como nós dois aqui agora’, ele disse olhando-me diretamente nos olhos e, inexplicavelmente, desviei. ‘Era sempre eu que começava os diálogos, me entusiasmava muito perto dela. Ela sempre sorria, às vezes comentava algo, às vezes me deixava falar sozinho, pois sabia que eu gostava de monólogos. Eram raras as vezes em que falava, mas quando o fazia, o assunto era sobre orquídeas. Ela adorava. Detestava morar num prédio alto e não ter espaço para um jardim. Eu... eu dei uma orquídea minúscula no nosso aniversário de dez anos de amizade, não tinha muita economia, minha mãe nunca confiou em mim para me dar grandes quantias de dinheiro, afinal eu era filho do meu pai, não era confiável’, ele pegou o gato e o colocou na cabeça, começou a brincar com as patas do animal não ligando para as unhas afiadas. ‘Há quatro anos a levei a parque de diversões que estava de passagem na cidade. Nós... nós estávamos na montanha-russa quando, hm, comecei a dizer o quanto ela era especial na minha vida, de como tinha me ajudado a passar por toda a crise após o escândalo do meu pai apesar do governo sempre ter ocultado os fatos e de como fui mudando meu conceito em relação a forma que a via. Disse que queria tê-la para sempre ao meu lado, mas não como amiga, não seria o suficiente, mais do que isso. Lembro-me de corar igual a um tomate. Ela nunca respondeu nada. Apenas segurou a minha mão’, sorriu, ‘e, sabe, bastou’. Ele parecia feliz e aquilo também bastou naquele momento. ‘Nunca a vi tão desesperada quanto no dia em que vimos o noticiário nacional anunciando que humanos geneticamente modificados estavam atacando. Ela pareceu tão apavorada... Queria reconfortá-la, mas não pude porque estava da mesma forma. Ela ficou meses sem sair de casa. Implorava para sua mãe não sair, implorava para eu parar de visitá-la. É, ela estava realmente assustada, apavorada. Ela tinha apenas dezenove anos, não tinha vivido um terço do que tinha pela frente. Mas ao mesmo tempo se mostrava tão forte quando se tratava de proteger a irmã caçula de quatro anos. Ela contava histórias sobre castelos, dragões e maçãs doces e falantes para ela todas as noites, criava músicas para diverti-la, inventava brincadeiras para distraí-la da televisão. Isabella sabia que tudo estava perdido, Isabella havia entregado a sua coragem de mão beijada, mas Isabella quis que sua irmã tivesse um final feliz. Eu realmente não sei o que é amor, mas com certeza foi isso que senti quando a vi ninando a pequena enquanto chorava vendo o noticiário dando destaque às tragédias biológicas. Prometi a ela que nunca a deixaria pelo mais curto segundo’.
Peter parou.
‘Depois de muito custo, consegui convencê-la a ir até praça para ver as flores e tomar sol. Ela disse que não queria demorar, em breve a irmã pegaria no sono e queria terminar a história do... dragão que não sabia voar? Sim, creio que sim. Então nós fomos. Um rapaz entregou um folheto para ela no caminho. Adivinhe só? Uma exposição de orquídeas. Santo Deus, fazia tanto tempo que não via aquela menina tão animada com qualquer coisa! ‘Ah, Peter, por favor, vamos lá, por favor, por favor?’. Como negar? Fomos. Fizemos uma vaquinha e compramos uma. ‘Já não era sem tempo de dar uma vida nova àquela cozinha!’. Nós decidimos voltar para seu apartamento quando toda aquela confusão miserável começou. Primeiro foram os gritos, depois as pessoas descontroladas correndo sem rumo, as crianças pequenas procurando as mães, as mães deixando os filhos para trás, os maridos desesperados atrás de suas esposas. Aparentemente uma coisa muito rápida chegou ali. Muito rápida. Tantos corpos, tanto sangue... tudo apenas causado por um’. Peter encarou-me de uma forma que entendi como fria. Achei justo ele me odiar. ‘A orquídea caiu enquanto procurávamos a saída, tentei voltar para pegar, mas Bella gritou ‘esqueça as frivolidades, Peter!’. Quis beija-la naquele momento, a pequena orquídea ordenando abandonar a sua igual, mas não pude. Arrependo-me seriamente por não ter feito... Quando chegamos à saída, não vimos sinal de qualquer ser humano. Conseguiram fugir. Corríamos para a porta de entrada quando ouvimos um choro de criança. Ela parou. Olhou para todos os lados procurando sinais de vida, mas não viu nada. ‘Vamos, Bella’, ‘Tem uma criança aqui, Peter, e eu tenho uma irmã de quatro anos me esperando em casa. Pode ir, mas eu preciso encontrá-la’. Fantástica, não é? Decidi ajudá-la a procurar. O pequeno provavelmente havia se perdido da mãe. Cerca de cinco minutos depois avistamos uma coisinha pequena sentada no chão, com as mãos no rosto, chorando baixo. Ela correu até ele e o segurou no colo, conseguiu acalma-lo, beijou-lhe a testa e veio até mim. Foi aí que nós vimos aquela... coisa. Estava com a cabeça num ângulo impossível, farejando algo como um cachorro. Paramos de respirar. Ele ia embora, sim, ia, mas foi nesse momento que o menino tirou a cabeça dos cabelos cacheados de Bella e gritou. A coisa nos viu. Seu rosto era enjoativo de se encarar; quantos ferimentos, quanto sangue. Ele correu tão rápido... Ela me entregou a criança e me mandou correr, mas eu não obedeci. ‘Vai você’, gritei. Ela me deu um tapa na cara, ‘Por favor, Peter’. E eu... corri. O menino não parava de chorar e eu senti que estava indo para o mesmo caminho quando olhei para trás e vi a vulnerável Isabella correndo atrás de mim. Ela estava com cortes em vários lugares e uma mordida muito feia no braço. A coisa vinha atrás dela. Corri mais, fui suficientemente rápido para fechar a porta do ginásio quando passei. Coloquei o menino no chão. Pude sentir Isabella chegando até a porta e encostando suas mãos ali. ‘Sinto muito... eu sinto muito... Bella, eu...’, iria abrir a porta, mas ela segurou a maçaneta. ‘Você foi ótimo, Pete. Obrigada por tudo’. E mais nada’.
Ele encarava o nada. ‘O pior de tudo foi vê-la destroçando a pequena Magda. Sabe, foi algo bem desagradável de se ver e ouvir. Eu estava no banheiro quando a senhora Anderson abriu a porta do apartamento e gritou um sufocado ‘Isabella!’ Não era a nossa Isabella, era uma coisa burra e nojenta. Sabe, nunca senti raiva do meu pai, nunca. Apesar de tudo, sempre o considerei como um exemplo a ser seguido. Mas quando aqueles homens me trouxeram pra cá e disseram todas aquelas coisas... A raiva que senti foi inexplicável. Sabe o que é ter que ver a única pessoa que você amou verdadeiramente em vinte anos se transformar num monstro na frente dos seus olhos, vê-la destroçando insensivelmente a coisa que ela mais prezava no mundo em vida e saber que tudo isso é culpa do seu pai? Uma vingança por ter sido preso por ter lobotomizado vinte pessoas num porão? Eu odeio aquele homem. Não é mais o meu pai, o meu genial e brilhante pai. É um monstro que se equipara perfeitamente aos seus bonequinhos’. O gato fugiu. ‘Quando o silêncio reinou, pensei que ela tivesse ido embora. Abri a porta do banheiro com cuidado, mas ela estava ali, me esperando. Voou para o meu pescoço, mas consegui voltar para o cômodo antes que ela me arranhasse. Não sei como sobrevivi. Na verdade eu não queria ter sobrevivido. Deveria tê-la deixado sumir com o meu corpo, me transformar apenas numa lembrança’, ele sorriu e deitou-se no colchonete que havia trago, tapando o rosto com o braço. ‘Apesar de tudo, eu nunca disse que a amava. Mas o fiz. Ainda faço’, e calou-se.
Não fazia ideia de quem Peter realmente era, de qual era sua história. Conhecia-o há menos de vinte e quatro horas, mas sentia algo forte por ele. Eu... eu não sei.
Depois do que me contou, acredito que sou grata a ele não ter me deixado morrer no exterior. Ele tentou me salvar mesmo sabendo da minha natureza. Soprei o vidro. Com a ponta do dedo, escrevi ‘sinto muito’ em letras garrafais. Bati no vidro querendo chamar sua atenção antes que desaparecesse, mas ele ignorou. Tentei desesperadamente chamar seu nome, em vão.
Depois do que me contou, acredito que sou grata a ele não ter me deixado morrer no exterior. Ele tentou me salvar mesmo sabendo da minha natureza. Soprei o vidro. Com a ponta do dedo, escrevi ‘sinto muito’ em letras garrafais. Bati no vidro querendo chamar sua atenção antes que desaparecesse, mas ele ignorou. Tentei desesperadamente chamar seu nome, em vão.
Uma espécie de melodia rápida começou a tocar. Ele enfiou a mão no bolso do jaleco e tirou um aparelho estranho. Olhou a tela do mesmo e não pareceu satisfeito com o que viu. Atendeu, levantou-se, destrancou a porta biométrica e saiu do local.
Continuei tentando chamá-lo. Não queria parar de insistir e não conseguia entender o porquê. Queria saber por que ele me olhava de formas tão diferentes ao mesmo tempo, queria saber por que estava contando toda sua história para mim. Eu não passava de um experimento, por que se importar tanto? Era como se ele tentasse implantar algo em minha mente, como uma semente... ou apenas liberar algo que foi esquecido.
Peter voltou e bateu a porta dupla com força, e, apesar de poder dá-la segurança máxima apenas com a digital, tirou um molho de chaves do bolso e parecia desesperado em achar a chave pertencente a ela. Novamente escutei os sons abafados de passos do lado de fora. Passos pesados. Trancou-a.
Correu até a escrivaninha do computador e abriu todas as gavetas. A quarta tinha um compartimento secreto e de lá saiu uma pequena pistola quase transparente. Colocou-a no bolso. Senti... medo?
Veio até mim e não hesitou em apertar o botão. O hemisfério de baixo desceu. Puxou-me de forma bruta e abraçou-me.
Apertou-me forte. Muito forte. Retribuí a força inconscientemente. Não sei quanto tempos ficamos ali, só sei que não desejava um fim. ‘O chefe ligou. Algum dos ‘seguranças’ comentou casualmente com ele que mencionei uma experiência ontem à tarde, portanto ele se interessou. Outro disse mais casualmente ainda que eu fiquei muito inquieto pela manhã, e não era pelo café. Comentaram que quase não saí do laboratório por dias e desconfiam de que tenha dado certo. Mas o chefe sempre sabe. Ele sabe que estou escondendo algo dele, sabe que deu certo. Os... os ‘seguranças’ estão vindo pegar você, vão lhe jogar num jato como um saco de batatas e levar você até a capital, para testes. Vou ficar aqui passando as informações por computador. Eu acabei de salvar o mundo. Eles vão libertar a minha família. As coisas finalmente vão voltar ao normal’, ele sussurrou. ‘Vão fazer testes terríveis com você, terríveis. Você vai sofrer tanto antes de ser totalmente paralisada, mas tanto...’. Não importa, pensei, você vai ficar feliz; isto basta. ‘Me desculpe’, ele disse, sua voz estava embargada. ‘Desculpe por ter sido tão maleável. Desculpe’. Eu afastei nossos corpos e sorri para ele. Sentia-me útil. Por trás das lentes grossas para hipermetropia, pequenas poças de água formavam-se. Sorri mais quando vi aquilo. Choro de felicidade, é como eles chamam.
‘Desculpe’, ele disse.
Então senti algo gelado no centro de meu peito. Olhei para baixo e vi onde a pequena pistola se encontrava. A dor era monstruosa; sentia cada parte minha realmente sendo destruída, parando de funcionar de modo voraz. O pior era não entender o motivo. ‘Não podia entregar você, não ia aguentar saber que você estava sendo usada como meia de atletas nos dedos daqueles porcos. Oh, meu Deus, me desculpe por isso, me desculpe por tudo’, ele disse. Senti o gosto de sangue quente nos lábios. Ouvi batidas fortes na porta. ‘Watson, abra esta porta ou vamos derrubá-la. Você tem dez segundos’, foi o que foi dito no microfone externo. Eles começaram a contagem regressiva.
‘Não sei como eles vão colocar aquela porta no chão, mas vou dizer a eles que você não resistiu ao processo, mas... é óbvio que eles não vão acreditar. Provavelmente consequências grandes virão, mas eu realmente não me importo’, abraçou-me novamente, 'Eles não podem simplesmente me dispensar, eu sou essencial nesta operação e eles têm plena consciência disto'. Uma grande mancha de vermelho vivo passou a habitar o seu jaleco quando me engasguei em meu próprio sangue. Deu um beijo demorado em minha testa. ‘Você tem menos de três segundos agora’, ele disse enquanto deitava-me no chão. ‘Pense em orquídeas, meu bebê’, ele sussurrou em meu ouvido. Fechou meus olhos com os dedos.
Saint Johnsville? Sim, passei toda a minha vida lá. É uma cidade pequena, sem muitos atrativos, mas é calma e tem flores por todos os lados. Tem o sol mais agradável do mundo às seis da tarde. É um ótimo lugar para montar uma família, excelentes parques gratuitos para levar os filhos em tardes de sábado. Melhor cachorro-quente do estado na lanchonete da Sofia!
Se eu conheço a pequena Magda Anderson? A risonha de bochechas vermelhas? Ah, faça-me um favor. É claro que sim! É minha irmã caçula. Um dos dias mais felizes da minha vida foi receber a notícia de que minha mãe estava grávida novamente. Eu queria um menininho, queria ensiná-lo a não urinar para fora do vaso sanitário e vesti-lo de xadrez. Mas veio a Mag. Foi melhor do que eu esperava. As crianças sempre gostaram de mim, mas minha irmã não o fez. Foi um dos motivos por me cativar tanto. Tive que fazer por merecer. Mag ama as minhas histórias. Sua favorita é sobre a menina que encontrou o mar de peixes-orquídea. Ela realmente a ama, já a ouviu mais de cinco vezes, mas sempre pede mais e mais. Mag é a amiga que sempre desejei. Uma amiga que veio em forma de irmã.
... Peter? Quem não conhece o Peter-maluco? Eu estava lá quando ele abriu a cabeça do Joe, o hamster. Ele não ficou nem um pouco apavorado, ao contrário, parecia saber muito bem o que estava para fazer. Mas ficou tão desapontado quando viu que o bichinho morreu... Foi a primeira vez que segurei a sua mão. Acho que tudo começou ali, sabe. Ele sempre diz que vamos comprar a lanchonete da Sofia e criar nossos filhos à base de ovos mexidos e glacê de limão. Claro que considero essa ideia absurda, mas no fundo me imagino dizendo ‘Pete, não brinque com os ovos! Peter, pare de puxar o cabelo de sua irmã! PETER WATSON III, LARGUE MEU VASO! ESSA ORQUÍDEA É MAIS VELHA DO QUE VOCÊ, SEU INFELIZ!’. Na verdade, não importa muito se vamos nos casar, ter filhos, jardins ou qualquer coisa. Podemos ser apenas amigos. Só a companhia um do outro já me deixa feliz.
Lembrei-me do porque de estar ali, tão próxima da capital, de seu laboratório. Senti que devia procurá-lo. Também havia percebido o efeito reverso atuando quando fui atacada por aquele bastardo. Busquei a consciência por vontade própria.
Por isso, fugi. Corri por matas fechadas, escondi-me em lugares com condições inabitáveis, resisti ao desejo da fome.
Aquilo precisava parar antes que fosse tarde demais, o futuro das crianças deveria ser ofuscante como o brilho do ouro e não banhado em puro medo de existir. E eu sabia que ele poderia encontrar a solução.
Naquele momento, lembrei-me de que eu era Isabella Anderson, de Saint Johnsville.
A forte luz do laboratório que antes havia me cegado, agora se apagava aos poucos.
Ouvi a contagem. ‘Cinco’, disseram.
Tudo escureceu; o vento soprou lá fora.
E o silêncio foi tudo o que pude ouvir.”
*Alcatraz: série da FOX, onde mais de trezentos presidiários e quarenta guardas desaparecem misteriosamente da ilha e prisão de Alcatraz em 21 de março de 1963.
~x~
Saiu bem do rumo original, das lembranças de Jasmine, mas o que importa é que ela mesma aprovou o resultado final. Ela disse que até chorou.
Nem eu mesma sei muito bem que tipo de “monstro” foi esse que criei. “Apocalipse zumbi”, ela disse ao me contar. Mas não consigo me adaptar muito bem a essa ideia de “zumbis”, é algo repulsivo e monstruoso demais, acho que tenho medo. Meu Deus, é horrível pensar na possibilidade de mortos retornarem a vida com o único intuito de comer cérebros. “Ah, mas seria legal matá-los, estourar alguns miolos”, não, lógico que não. Qual a diversão em matar algo... morto? "Estourar os miolos” de uma coisa que ao invés de correr pela vida ao ouvir um som de disparo, corre para o disparo? Qual a emoção de matar alguém sem ver o desespero nos olhos dele? Nenhuma. Na verdade, as pessoas associam um possível apocalipse zumbi numa futura realidade porque gostam de ter algo para sonhar/distrair-se; nunca realmente pensam nos lados negativos da coisa toda. Meus monstros não são assassinos, apenas fazem o que lhes é adequado, catalogado como “rotina”; ser desprezível e temido é a natureza básica deles, mas alguns conseguem escapar dessa “nova natureza”, mas, pelos meus cálculos, isso apenas aconteceria se eles fossem mordidos por um igual, “o efeito reverso”. Ou seja, morreriam em breve. Por-tan-to, não faz muito sentido se libertar, é um ritual até doloroso. Porque eles recobrariam a consciência aos poucos, se lembrariam de tudo o que passaram, das pessoas que machucaram e ficariam perdidos ao perceber que estavam perdendo as capacidades aos poucos, sendo paralisados. Até morrerem totalmente.
É interessante debater sobre os meus monstros (seriam os monstros de Jasmine, mas uma vez que ela só enfatizou o ataque a animais que por sua vez atacariam os humanos, virando uma casa de furdunço completa). Realmente gostei de pensar sobre o porquê do aparecimento deles, sobre o poder do ódio humano, sobre a “loucura”, a curiosidade, sobre a falta de respeito e credibilidade em cima da ciência. Eu poderia escrever uma história longa sobre, mas não vou (por agora) porque vou me empolgar demais e isso é tão mágico, mas é tão chato. Você se apega demais a sua história, qualquer crítica sua acaba com você e com todo o ânimo. Isso sem contar com as revisões que cortam metade do texto original. E aumentam o texto original em três.
Breve história sobre Peter Watson
Peter Watson sempre foi um rapaz educado, curioso e quieto. Tirava notas medianas no colégio, quase nunca dava dor de cabeça para os pais, mas ficava muito tempo trancado em seu quarto, uma vez que seu irmão mais velho já havia partido para a faculdade. Também era muito apegado a insetos e adorava colecioná-los em vidros vazios. Quando começou a trabalhar, aos quinze anos, encomendava livros sobre o cérebro e seu estranho e misterioso funcionamento. Comparecer a eventos e seminários neurológicos era o seu maior prazer. Aos 21, começou a trabalhar em uma siderúrgica, aos 22 conheceu Jenine, uma moça de família, dona de traços comuns, exímia dona de casa e, o mais importante: quieta, contentava-se em não saber das coisas. Casaram-se. A mulher nunca considerou aquilo como um real casamento, como o de seus pais. Não havia comunicação entre o casal, apenas sexo quando ele estava cansado. Ele apenas agradecia por ela limpar a casa e mais nada. Diziam que Peter casou-se apenas para diminuir as suspeitas de sua loucura.
Eles tiveram um menino pouco tempo depois. Foi chamado de Peter. Se parecia muito com o pai, principalmente os olhos. Aquele verde claro indecifrável, frio e violento. Curioso como o pai, sempre armava um jeito de se esconder no porão da casa, onde “papai trabalhava e fabricava segredos que era melhor nem conhecer”. Peter não gostava da curiosidade não moderada do pequeno Pete e se irritava com frequência.
O homem já quase não ficava em casa. Tratava o lar como um ponto qualquer no meio das estradas, só para comer e dormir. Uma parada de caminhoneiro. Largou o emprego e pouco depois “mudou-se” para o porão, dizendo estritamente para ninguém, “repito, ninguém” ir até lá. Não se quisesse vê-lo realmente irritado. Jenine sentia medo do marido. Passava horas no telefone com a irmã mais velha, chorando. Não tinha coragem de sair da casa, não queria sujar seu nome na sociedade. Não desejava que seu pequeno Pete crescesse sem a presença paterna, e o menino admirava tanto aquele desgraçado! Um dia foi tomar conhaque escondida na cozinha e esqueceu-se do menino. Pouco tempo depois ouviu o choro escandaloso da criança. O susto foi tanto que deixou a garrafa cair no chão, espatifando-se. Cortou o pé com um caco maior enquanto corria na direção do filho. Encontrou Peter sentado em frente à porta do porão, com o pulso em um ângulo impossível. O menino gritava em plenos pulmões. “Santo Deus! Pete! O que aconteceu?!”, Jenine disse, o efeito do álcool indo completamente embora. Ele não respondia, apenas chorava.
O homem já quase não ficava em casa. Tratava o lar como um ponto qualquer no meio das estradas, só para comer e dormir. Uma parada de caminhoneiro. Largou o emprego e pouco depois “mudou-se” para o porão, dizendo estritamente para ninguém, “repito, ninguém” ir até lá. Não se quisesse vê-lo realmente irritado. Jenine sentia medo do marido. Passava horas no telefone com a irmã mais velha, chorando. Não tinha coragem de sair da casa, não queria sujar seu nome na sociedade. Não desejava que seu pequeno Pete crescesse sem a presença paterna, e o menino admirava tanto aquele desgraçado! Um dia foi tomar conhaque escondida na cozinha e esqueceu-se do menino. Pouco tempo depois ouviu o choro escandaloso da criança. O susto foi tanto que deixou a garrafa cair no chão, espatifando-se. Cortou o pé com um caco maior enquanto corria na direção do filho. Encontrou Peter sentado em frente à porta do porão, com o pulso em um ângulo impossível. O menino gritava em plenos pulmões. “Santo Deus! Pete! O que aconteceu?!”, Jenine disse, o efeito do álcool indo completamente embora. Ele não respondia, apenas chorava.
Jenine havia se descoberto grávida quando abandonou o sobrado confortável, com lareira e lustres do século XIX, quando percebeu o que o marido fez ao filho de três anos. Quando percebeu que a mãe se afastara, correu em direção ao escritório de papai, fazia tantos dias que não o via. Puxou a cadeira do corredor, subiu e abriu a maçaneta. Sentiu um cheiro forte de coisa podre enquanto pisava só de meias nas escadas antigas, escorregou no final, mas não se machucou. O fedor aumentava a cada passo dado. Viu a escrivaninha do papai e uma lâmpada acesa, correu até lá na esperança de ver o homem, mas tudo o que viu foi... nada. Quando se virou para procurar em outro lugar, bateu o rosto na perna do pai. “Eu avisei você, Pete, diversas vezes. Não desça até aqui, eu disse. Você me ouviu, não? Quer ver o que o papai faz aqui embaixo? Então venha ver, seu enxerido”. Segurou a criança pelo braço, puxando-a com toda a força que um homem adulto poderia ter. Peter gritava.
“Eu só queria ver você, papai! Papai, você está me machucando!”
“Ver? Ah, mas você vai, Pete. Vai ver tudinho."
“Eu só queria ver você, papai! Papai, você está me machucando!”
“Ver? Ah, mas você vai, Pete. Vai ver tudinho."
Três semanas depois ficou sabendo, pelos policiais que bateram em sua porta, notícias sobre o marido. Foi denunciado pelos vizinhos, o fedor que saía daquela casa era insuportável. A polícia foi até o local e não teve resposta ao chamar pelos donos. Decidiram arrombar. Chamaram os federais quando viram o caso: Peter matara mais de trinta pessoas com um veneno desconhecido, escondido cabeças de vários outros desaparecidos em uma geladeira antiga e realizado experimentos cerebrais completamente experimentais em vinte, causando-os morte instantânea.
Ela congelou. Então era por isso que Pete nunca havia dito o que havia visto lá embaixo, ele estava assustado demais para tal. “Nós precisamos do seu depoimento, precisamos que confirme algumas suspeitas, que afirme que ele vem tendo comportamento duvidoso”. Tudo que o desgraçado fizeram o próprio filho ver! Ela desmaiou.
Ela congelou. Então era por isso que Pete nunca havia dito o que havia visto lá embaixo, ele estava assustado demais para tal. “Nós precisamos do seu depoimento, precisamos que confirme algumas suspeitas, que afirme que ele vem tendo comportamento duvidoso”. Tudo que o desgraçado fizeram o próprio filho ver! Ela desmaiou.
Os homens de preto ocultaram tudo da mídia, ninguém a não ser o próprio governo, Jenine e os juízes do tribunal sabia de nada. Peter estava irreconhecível. Os cabelos castanhos, antes muito bem cortados e arrumados, caíam de qualquer forma sobre o rosto e ombros. A barba não era feita há semanas. Estava em uma camisa de força e tinha as pupilas dilatadíssimas, encarando a esposa com ódio puro. “Você é uma vagabunda traidora, Jenine Watson”, ele disse quando a viu chegando. “Uma puta que merece apanhar até perder todos os dentes. Cá entre nós, a casa não era o suficiente para você? Eu lhe dava todo o dinheiro que recebia daquela merda e você me faz uma coisa dessas. Você vai queimar, Jenine, ele me disse. Você vai descer para a boca do inferno e ter a alma retirada aos poucos com um garfo em brasa. Oh, Jenine. Vai sofrer tanto. Tenho dó da sua alma. Por que nada foi suficiente para você?”. A mulher ignorou todos os comentários maldosos, e fez o nome do pai. “Você está louco. Que Deus tenha piedade de sua alma, Peter."
Peter Watson foi acusado por mais de duzentos crimes. Deram-lhe crachá grátis só de ida para a fila da morte, mas foi internado em uma clínica psiquiátrica dois meses depois do julgamento. Nunca disseram a ninguém, mas ele poderia ser útil. E foi. Depois de mais de dez anos, viu os homens de óculos escuros irem pegá-lo numa quinta-feira chuvosa. “Posso transformar você em um macaco de circo, senhor”, ele disse quando o negro em terno italiano enfiou-o no carro. “Pode ser minha cobaia, senhor, por favor?”
Teve a missão de criar uma forma de extermínio eficaz devido a seus atos não apreciados do passado. “Você quer corpos? Nós lhe daremos corpos. Apenas faça”. Ninguém nunca soube o que aconteceu naquele laboratório, ninguém tinha acesso a eles. Dizem que Peter passava a noite toda trabalhando. Sempre era possível ouvir gotas d'água e batidas de peças cirúrgicas delicadas. Nunca ouviram um grito sequer. Peter era um verdadeiro gênio, conseguia calar a vítima sem usar métodos medievais. Mas ele se vingou. De todos que riram da sua capacidade, da ex-mulher, dos vizinhos. De quem o contratou. Ele se provou.
Como o prometido, presentearam-no com a liberdade quando viram que a coisa realmente funcionava. Não viam a hora de usar seu robô particular e não queriam o insano Peter Watson por perto. Ninguém sabe para onde ele foi, o que fez.
Só se sabe que seu coração ainda pulsa.
~x~
E este é um dos fatores por eu não concordar com experiências em humanos (não que eu as apoie em animais!1!). Você pode sem querer alterar uma pecinha insignificante e acabar realizando uma mutação escalar de raiva trabalhada em laboratório e não conseguir controlar a sua obra de arte. Sem uma forma de para-los, você acabaria extinguindo nossa raça do planeta. Seria ótimo. Vida longa aos vegetais, aves, os peixe-boi e a todos os outros animaizinhos. Mas e as evoluções científicas, e a curiosidade, e a vontade sufocante de conseguir responder os porquês? Pois é, meus amigos. Tomem cuidado com as experiências que realizam sem o auxílio de luvas de borracha e supervisão de adultos.
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