“É apenas uma história”, afirmam de nariz empinado enquanto consultam apressados um relógio de pulso. Mas... de vez em quando essas histórias se tornam importantes para a existência plena de alguém; mesmo que seja pelo mais bucólico motivo. Pessoas precisam de luz, pessoas precisam de fé, pessoas precisam ouvir histórias.
E minha mãe, apesar de indiretamente, é uma grande contadora de histórias. Pergunto-me todos os dias o que seria do meu caráter se ela não tivesse sido essa espécie de ratinho que sempre farejava novos VHS por aí. Preocupo-me por demais quando penso em qual seria minha relação com livros e imaginação se ela não tivesse corrido atrás dessa fita cassete de The Pagemaster. Só sei que tenho medo.
E, sim, me lembro bem daquele dia. Estava quente e eu estava mal humorada, mas mesmo assim minha mãe quis dar uma passada rápida na locadora. Só sei que queria ir embora. Mas é claro que ela se encantou com aquela fita, é evidente. Oh, sim, mas que tipo de adulto insensível de trinta e seis anos não se encantaria com uma fontinha mal caráter indicando um nome gringo feio, um brutamontes cabeludo carregando uma lanterna, (porém o velho mago grisalho que se parecia com o Pagemaster era bem interessante), um castelo mal-assombrado lá em cima, velas voando sozinhas!, uma raparigazinha de rosto cheio, carregando livros velhos, fedorentos e de páginas amarelas? E isso sem falar no menino voando numa vassoura lá atrás.
“Ah, mãe, mas faça-me um favor!”.
Mas o mais interessante de tudo é que a tal adulta de trinta e seis anos não queria alugar aquela fita de fantasia para a filha pequena, mas para sua própria diversão! Mariana estava apoquentada. Só queria ir para casa e jogar em seu Windows 98. (A mãe levou o segundo filme da série de bônus. “Diversão”, ela dizia.) Eis que chegaram em casa e Mariana tirou os tênis. Sua mãe fazia pipoca.
Mas quando a mãe colocou a fita no aparelho e Mariana viu o velho grisalho (“oh! O Pagemaster é humano!") chegando naquele conjunto de casas idênticas, aquele gato se transformando em mulher, teve que dirigir-se para o sofá, roubar a pipoca e pedir para rebobinar. E foi assim que ela encontrou a sua história.