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Poema #29

o maior medo do ser humano,
aquele que o aflige o tempo todo,
mesmo imperceptivelmente,
é a falta de controle.

o vácuo 
de dominação nula
no outro. 

a impotência
em frente a natureza.

sente-se nos ossos.
é assustador, 
não é?

Poema #26

quando a linha entre a
genialidade e a loucura
aparece?
será que ela realmente existe,
ou não passa de um mito?

Poema Falso-23

como aquele coelho de Alice
posto-me a dizer
atrasado atrasado atrasado.

o que é, afinal, o atraso?
como medimos o tempo?
ele é real,
ou um produto imaginário?

não, não há tempo
para divagações;
eu estou
atrasado atrasado atrasado.

Poema #22

a sensação de vazio está
tão intensa,
tão enraizada,
que escuto os meus próprios
ecos.

Poema #21


a existência nada mais é do que
compostos consequenciais.
somos todos dominós
esperando a nossa vez de
tombar.

Poema #20

"a luz não protege você de nada...", disse a bisavó
sentando-se na beirada da cama do primeiro bisneto.
"mas a escuridão...
ela é perigosa, bisa!"
a mulher joga a cabeça para trás,
mirando a luminária em forma de castelo.
"a escuridão não oferece a você nenhum perigo...
tudo o que há nela, há na luz. e o inverso também."
ela ri com o vinco que se forma no meio da testa da criança.
"um dia você vai entender que os acontecimentos são inevitáveis.
que estarmos no escuro ou na luz não os impedirá de acontecer."
ela lhe dá uma batidinha simpática nas pernas,
o esforço que ele exerce para tentar entender é tocante.
"mas...
até você chegar lá, 
os guardas de seu castelo protegerão você."

quando o menino se vira para mirar a parede
e abraça a pelúcia com mais força,
ela se levanta e caminha até a saída.
quando segura a maçaneta da porta
pode jurar que vê um brilho diferente saindo da luminária. 

sorri.



Poema Dezenove

dois desconhecidos sentam-se 
lado a lado 
no balcão de um bar pouco movimentado.
"não costumava ser assim, sabe", disse o primeiro,
"mas desde que aquele pub moderno abriu ali
na esquina
quase ninguém vem para cá."
o segundo acena e volta a se concentrar na bebida,
no futebol passando na televisão,
no barulho dos carros do lado de fora.

o segundo desconhecido só quer esquecer-se do dia.
da briga com a esposa logo de manhã,
de ver seus trigêmeos chorando enquanto acenavam para ele,
dentro do carro da mãe,
a caminho da escola; 
dos estresses no trabalho,
do smoothie que deixou cair no terno na pausa para o café,
no finalzinho da tarde. 
ele não conseguiu se focar na reunião com a companhia da capital.
só conseguia pensar em sua mulher,
nos insultos,
no inferno em que estavam colocando os filhos. 

deus, onde ele estava com a cabeça?

Poema #18

remexendo em alguns pedaços de papel antigo,
encontrei uma anotação do primeiro feriado de novembro.
eu digo que me senti ligeiramente mal
e, na noite seguinte, foi como se eu fosse
pura e somente
energia (luz)
de tão infinita.

pus-me a refletir, então
para onde foi todo o sentimento?

Poema #17

há um momento em que tu
finalmente
percebes que moras com fantasmas.
revivendo todas as lembranças,
tu te dás conta de que nada se manteve
e de que hoje tudo se esvaiu. 
tu estiveste dividindo a tua pensão mental com eles há tanto,
tanto tempo
que mal se deste conta do quão solitário realmente 
és.

Poema #16

você já sentiu falta,
mas uma falta constante,
intensa e esmagadora,
do que nunca aconteceu?

você já conseguiu admitir que,
na maioria das vezes,
só sente saudade de uma memória? 

você já parou de negar que
gosta mais da ideia das coisas
do que de suas formas físicas?

e, se não, quando?

Poema Falso-15

são tantas ideias perdidas no playground ao redor do teu pensamento
tantas genialidades excluídas porque não foram usadas no momento certo
e depois só há lamúria
sobre o tempo perdido.

Poema #14

oh, ando em três vias distintas.

a Primeira diz:
"claro que você não superou!
no fundo, continua sendo a menina
medrosa,
chorona,
esperançosa e hipócrita
de quatro,
cinco,
seis anos,
sendo passada por uma janela às pressas";
a Primeira suspende uma placa dizendo:
"IGNORANDO FATOS POR TEMPO INDETERMINADO."

Poema #12

despedem-se
e a única coisa que ele diz é:
"sobreviva."
ela para,
encara as suas costas,
o vê partindo.
"sobreviva",
repete para si mesma.
e se faz uma promessa:
"eu vou sobreviver
apenas para provar a você que consigo."

Poema #11

quando o seu corpo fica doente a sua alma também adoece?
ou o corpo enfermo é a exteriorização da doença da alma?

Poema 5.1

em toda a minha vida
eu venho lutando uma guerra que
sei que não posso ganhar, que
sei que não vou ganhar.
eu aceito que
não estou no controle, que
não tenho controle, que
nunca tive o controle
da minha vida.
é pacífico.  

Poema #1

se vê em uma
corda bamba balançando
para lá
para cá
ali, acolá
e de volta outra vez.
mas há tanto tempo se
equilibra
que o medo de despencar
rumo ao desconhecido
não o afeta mais.
talvez ele voe.
quem sabe?