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Folhas caídas no chão

Percebeu que estava vivo, mas que já não queria viver. As texturas antigas ainda o agradavam, mas não como as novas, que aparentavam criar linhas imaginárias e guiá-lo a lugares diferentes e novos, agradáveis talvez, imaginários ou não. O mundo girava e ele mal percebia. Porque não gostava de mudanças, o novo quase nunca o agradava. Quase.

Saiu em busca de algo que sempre sonhara em procurar. Deparou-se com um labirinto, com o mais eclético. Nunca pensou que o tudo pudesse se misturar com o nada com tanta facilidade como presenciou ali. Mordeu o indicador, hesitou por onde ir e acabou ficando parado na sombra. Recostou-se a uma parede gelada, que surgira a pouco, e olhou, sonolento, o giro da roda gigante, no meio de tudo aquilo; talvez fosse seu objetivo desde o começo. 

Só assim percebeu que tudo não passava de um sonho. Um sonho no próprio subconsciente, onde o objetivo era achar a essência de si mesmo, há tanto perdida. O movimento do brinquedo se tornou mais rápido, perigoso. E entendeu. A vida era quase como roda gigante. Um dia estava em cima, outro embaixo, vagarosa, audaciosa. Tudo uma questão de ponto de vista e essência. Quando tornou a abrir os olhos, seguiu a vida, tranquilo. Só viveu.

Pássaro azul

Era uma vez uma menininha que sonhava em ter um canário. Para ela não existia coisa mais perfeita que aquela ave pequena e ligeira, nada. Seus pais a deram vários outros animais, mas ela não ficava satisfeita com nenhum deles. Observava aqueles pequenos passarinhos voando em seu quintal e seu desejo por ter um para chamá-lo de seu aumentava a cada dia. Até que em uma bela manhã, ela acordou e viu uma gaiola no quarto. Foi vagarosamente até ela e viu um pequenino pássaro amarelo. Oh! Como a pequena garotinha ficou feliz naquele dia; seu maior desejo se realizara! Porém, quanto mais o tempo passava, mais ela deixava de ver aquele brilho mágico que sempre enxergava ao ir brincar com seu pequeno passarinho. Até que um dia, não o querendo mais, acabou por solta-lo em seu quintal. Ela o viu subir pelo céu, batendo a asa mais forte do que nunca o vira bater. Ela o ouviu assobiar. E ela sorriu. Sorriu porque aprendeu que nem sempre o que você mais deseja precisa necessariamente ficar em seu poder. Às vezes você tem que deixar o seu amor livre. Mesmo que ele seja um passarinho.

Como conseguir um sorriso em cinco minutos

A vida era a mesma naquela cidade do interior. Alguns trabalhadores acordavam antes das quatro para pegar no batente; outros já se demoravam mais debaixo dos edredons, dizendo o típico apenas mais um minutinho...; estudantes acordavam de muitíssimo mau humor para seguir para a escola e não prestavam atenção no mínimo de palavras ditas pelos professores cansados; mas, mesmo assim, alguém insistia em sair da rotina. Sentada no parapeito da janela de um prédio no centro da cidade, uma jovem moça carregava um livro de aparência antiga; livro gasto, livro com história, livro bom. Fazia uma etiqueta de roupa dançar entre os dedos na outra mão, e mudava de expressão a todo segundo, sentindo todas as emoções do personagem. Pausadamente parava para mudar a música que ecoava em seus ouvidos através dos fones; sem perceber, levantava os óculos para o lugar certo sempre que este escorregava pelo nariz. Por vez guardava a etiqueta sem querer no bolso do moletom gasto e entrava em desespero por achar que havia perdido o décimo terceiro marcador de livros na semana; mas logo o encontrava. Suspirava ao perceber que seu tempo estava se esgotando e pulava para dentro de casa novamente, saindo apressada pela porta e dando um "tchau" sibilado para a mãe, que ainda tinha sono profundo no quarto.


A falta que a falta faz

E foi com o coração quebrado que ela o levou até a porta de entrada e despediu-se com um gesto solene de cabeça – suas mãos seguravam os grandes cacos vermelhos do que antes era sua fonte vital de sentimentos, de vida. Encostou a porta com o cotovelo e andou ligeira até uma bancada limpa da cozinha. Colocou os cinco pedaços, um a um, com cuidado ali. Estava destruído, sim, era visível, mas não queria dizer que não mais necessitasse de cuidados, que não fosse mais parte dela.

Depois puxou uma cadeira e colocou-a ali, na frente, sentou-se e segurou o rosto. Todos os músculos faciais tremiam e seus olhos procuravam algo a se apoiar para manterem-se firmes, mas era uma árdua tarefa e ela não aguentaria por mais muito tempo. Encarou os pedaços. Pareciam vidro. Reluziam. Qualquer um que o visse, e não soubesse da história completa, timtim por timtim, diria que aquilo era só mais uma peça de decoração quebrada – nada que uma supercola não resolvesse. E resolveria sim. Seria colado, recolocado.

Mas funcionaria da mesma forma?