“João. João Silva.”
Sim, realmente um nome simples e comum, mas João gostava. Gostava porque era o nome dele, ora. E mesmo que existam mais três bilhões de João Silva por aí, não fazerá diferença na vida do nosso João porque ele é único. Bem, pelo menos foi isso que ele aprendeu na escola. Não se lembrava de ter frequentado a escola, nem de ouvir ninguém falando sobre isso; ele apenas se lembrava de saber, se lembrava de lembrar.
João também não se lembrava da sensação de ter passado no vestibular e ter se formado em Neurologia. Nem de como conheceu sua noiva e seu melhor amigo, nem de como tinha largado o vício do ócio. Muito menos de onde aprendera esgrima. E Shiatsu. Às vezes ele tentava imaginar como fora o choque exato ao saber da morte do pai naquele acidente de carro... mas tudo o que conseguia imaginar era um grande muro branco com o desenho de um inseto — e que inseto pavoroso era aquele ali, pintado com tinta preta no muro? Também queria saber quando fora a primeira vez que cantara a música “Every Sperm Is Sacred”.
O caso é que João estava tendo pesadelos diários há três dias, semanas, meses, anos? Ele não se lembrava ele era exatamente, mas, sempre que tentava se lembrar, sentia certo receio. João era um homem corajoso. Se algo o dava receio era porque era algo gravíssimo. Laura, sua noiva, e Luízio, seu amigo, também estavam preocupados — tinham os mesmos pesadelos com frequência, mas tinham vergonha de admitir. E se também estivessem ficando loucos?
Como aquela falta de lembranças incomodava João! Era como se todos os dados que ele absorvia durante um dia fossem excluídos na hora de dormir. Não era normal, não era natural. Havia algo errado, ele tinha certeza. E o pior: se ele não conseguia se lembrar de nada, por que sempre ficava com pesadelo apitando em sua cabeça?
João estava dirigindo sem rumo para algum lugar quando ouviu aquele barulho. Um barulho desconhecido e tão, tão alto. Imenso. Ensurdecedor. As pessoas na rua pararam desesperadas quando viram o céu perdendo a cor; desaparecendo, literalmente. Uma gritaria infernal, crianças chorando, alguns rezando. João, desesperado, ligou para Laura, mas a voz automática disse que aquele número não existia. Tentou ligar para a mãe, o avô e Luízio. Nada deu certo. Sentiu algo mordendo seu pé e quando olhou para baixo, lembrou-se de seus pesadelos perfeitamente. E tudo acabou tão rápido como começou.
Três traças irmãs, satisfeitas com a refeição, foram tirar um cochilo no meio de outro livro, velho, mas com um sabor sensacional — meio parecido com pizza, frango frito ou um copão de leite gelado. As três traças irmãs pegaram no sono enquanto agradeciam ao dono descuidado daqueles livros.
O dono daqueles livros era um homem ocupado e sério. Ele cresceu lendo por influência da família, mas depois que se transformou num adulto, abandonou o hábito, pois começou a viver para o tempo e o trabalho. E se orgulhava. O que fez com os livros? Como tinha levado apenas alguns para o novo apartamento, jogou-os numa caixa de óleo de cozinha e deixou-os num quarto vazio, escuro e frio. Apesar de dizerem que os livros não têm vida, eles sentiram que não eram mais bem-vindos ali, mas simplesmente não podiam criar pernas e fugir para uma biblioteca com crianças sedentas de aventuras e saber. Como se sentiram felizes quando as três traças irmãs vieram! Mas só depois de um longo tempo é que foram perceber que elas não eram tão amigáveis quanto eles pensaram.
Acontece que a pretendente do nosso homem ocupado e sério tinha um sobrinho que vivia com ela. E ela sempre o levava para a casa do pretendente para deixá-lo jogar videogame. E ele entrou no quarto vazio, escuro e frio uma vez e se apaixonou pela caixa à primeira vista. Mas se assustou com as três traças irmãs. Foi falar com o homem, mas ele estava ocupado demais ouvindo alguma futilidade que sua tia dizia. Ele tentou levar a caixa para casa e cuidar daqueles inocentes, mas a tia simplesmente desprezou a ideia e o menino ficou triste. Os livros também. Estavam condenados. A imortalidade condenada pelo tempo...
Pois se nosso homem sério não fosse tão sério, ele teria salvo a memória de João. Ajudado uma jovem corajosa a encontrar a cura para o vírus que transformou bilhões de pessoas em zumbis. Feito um casal de camundongos roubar o grande queijo e alimentar seus filhotes. Feito corajosos astronautas se sacrificarem para salvar seu planeta e ajudado um soldado de guerra vencer e voltar para a mãe, a esposa e o filho, que ele tanto amava.
A moral desta história é que você não deve comprar um livro se não gostar de crianças. Porque livros são como as crianças, de certa forma. Você precisa dar atenção, você precisa limpá-los e levá-los ao sol de vez em quando. Precisa deixá-los confortáveis. E, acima de tudo, precisa amá-los, pois eles precisam se sentir úteis e também porque eles serão o conceito mais fantástico que vai cruzar a sua existência.
Sim, realmente um nome simples e comum, mas João gostava. Gostava porque era o nome dele, ora. E mesmo que existam mais três bilhões de João Silva por aí, não fazerá diferença na vida do nosso João porque ele é único. Bem, pelo menos foi isso que ele aprendeu na escola. Não se lembrava de ter frequentado a escola, nem de ouvir ninguém falando sobre isso; ele apenas se lembrava de saber, se lembrava de lembrar.
João também não se lembrava da sensação de ter passado no vestibular e ter se formado em Neurologia. Nem de como conheceu sua noiva e seu melhor amigo, nem de como tinha largado o vício do ócio. Muito menos de onde aprendera esgrima. E Shiatsu. Às vezes ele tentava imaginar como fora o choque exato ao saber da morte do pai naquele acidente de carro... mas tudo o que conseguia imaginar era um grande muro branco com o desenho de um inseto — e que inseto pavoroso era aquele ali, pintado com tinta preta no muro? Também queria saber quando fora a primeira vez que cantara a música “Every Sperm Is Sacred”.
O caso é que João estava tendo pesadelos diários há três dias, semanas, meses, anos? Ele não se lembrava ele era exatamente, mas, sempre que tentava se lembrar, sentia certo receio. João era um homem corajoso. Se algo o dava receio era porque era algo gravíssimo. Laura, sua noiva, e Luízio, seu amigo, também estavam preocupados — tinham os mesmos pesadelos com frequência, mas tinham vergonha de admitir. E se também estivessem ficando loucos?
Como aquela falta de lembranças incomodava João! Era como se todos os dados que ele absorvia durante um dia fossem excluídos na hora de dormir. Não era normal, não era natural. Havia algo errado, ele tinha certeza. E o pior: se ele não conseguia se lembrar de nada, por que sempre ficava com pesadelo apitando em sua cabeça?
João estava dirigindo sem rumo para algum lugar quando ouviu aquele barulho. Um barulho desconhecido e tão, tão alto. Imenso. Ensurdecedor. As pessoas na rua pararam desesperadas quando viram o céu perdendo a cor; desaparecendo, literalmente. Uma gritaria infernal, crianças chorando, alguns rezando. João, desesperado, ligou para Laura, mas a voz automática disse que aquele número não existia. Tentou ligar para a mãe, o avô e Luízio. Nada deu certo. Sentiu algo mordendo seu pé e quando olhou para baixo, lembrou-se de seus pesadelos perfeitamente. E tudo acabou tão rápido como começou.
Três traças irmãs, satisfeitas com a refeição, foram tirar um cochilo no meio de outro livro, velho, mas com um sabor sensacional — meio parecido com pizza, frango frito ou um copão de leite gelado. As três traças irmãs pegaram no sono enquanto agradeciam ao dono descuidado daqueles livros.
O dono daqueles livros era um homem ocupado e sério. Ele cresceu lendo por influência da família, mas depois que se transformou num adulto, abandonou o hábito, pois começou a viver para o tempo e o trabalho. E se orgulhava. O que fez com os livros? Como tinha levado apenas alguns para o novo apartamento, jogou-os numa caixa de óleo de cozinha e deixou-os num quarto vazio, escuro e frio. Apesar de dizerem que os livros não têm vida, eles sentiram que não eram mais bem-vindos ali, mas simplesmente não podiam criar pernas e fugir para uma biblioteca com crianças sedentas de aventuras e saber. Como se sentiram felizes quando as três traças irmãs vieram! Mas só depois de um longo tempo é que foram perceber que elas não eram tão amigáveis quanto eles pensaram.
Acontece que a pretendente do nosso homem ocupado e sério tinha um sobrinho que vivia com ela. E ela sempre o levava para a casa do pretendente para deixá-lo jogar videogame. E ele entrou no quarto vazio, escuro e frio uma vez e se apaixonou pela caixa à primeira vista. Mas se assustou com as três traças irmãs. Foi falar com o homem, mas ele estava ocupado demais ouvindo alguma futilidade que sua tia dizia. Ele tentou levar a caixa para casa e cuidar daqueles inocentes, mas a tia simplesmente desprezou a ideia e o menino ficou triste. Os livros também. Estavam condenados. A imortalidade condenada pelo tempo...
Pois se nosso homem sério não fosse tão sério, ele teria salvo a memória de João. Ajudado uma jovem corajosa a encontrar a cura para o vírus que transformou bilhões de pessoas em zumbis. Feito um casal de camundongos roubar o grande queijo e alimentar seus filhotes. Feito corajosos astronautas se sacrificarem para salvar seu planeta e ajudado um soldado de guerra vencer e voltar para a mãe, a esposa e o filho, que ele tanto amava.
A moral desta história é que você não deve comprar um livro se não gostar de crianças. Porque livros são como as crianças, de certa forma. Você precisa dar atenção, você precisa limpá-los e levá-los ao sol de vez em quando. Precisa deixá-los confortáveis. E, acima de tudo, precisa amá-los, pois eles precisam se sentir úteis e também porque eles serão o conceito mais fantástico que vai cruzar a sua existência.
Espero que tenha um bom dia.