Parada a beira do caminho em um esqueleto improvisado de barraca-madeira, placa de papel erguida com os dizeres
DESCASCA-SE LARANJAS
. Não parecia certo, todavia não mostrava nada sujo ou inesperado. Toda a definição esperada desta realidade estava bem guardada, preenchida naquele saco de laranjas doces e de boa plantação. Olhou o relógio, preocupada. Decidiu guardar tudo na velha bolsa roxa e começou a soltar as tábuas.
Voltava para casa ainda preocupada. Havia perdido a noção do tempo pensando em como a força da atração é precisa. Tanto sonhou que conseguiu.
"Não eram sonhos", repetiu consigo, "apenas possibilidades – terríveis possibilidades."
Suas mãos tremiam quando chegou a casa. Depois de tentar abrir o portão enferrujado com a chave pertencente a perigosa janela da cozinha por três vezes, finalmente conseguiu transpassar a porta principal, deixar o saco transparente de laranjas e a bolsa roxa sobre a mesa da cozinha e as tábuas em um canto qualquer, porém precisamente calculado; correr.
A senhora estava deitada confortavelmente em um quartinho bem iluminado, assistindo televisão. Tinha uma tigela de porcelana com sopa de batatas no colo. Dava risadas do desenho animado que passava.
"Já lhe disse para não fazer movimentos bruscos!"
"Não me mate antes do tempo", a senhora respondeu sorrindo.
"Não repita mais isso, mãe", ela disse séria. "Nunca mais".
Seguiu para o banheiro e seus olhos congelaram-se em cima do rótulo de remédios para dormir. Nunca os havia usado, mas sempre comprava um pote novo a cada dois anos. O primeiro datava Ago/2010. Oh, Deus... tanto, tanto tempo havia se passado...
Nunca pôde. Sua mãe precisava dela.
Não queria decepcioná-la, não podia.
Quando finalmente contou as pílulas na mão, não mais precisou. A esperada desconhecida havia chegado mansa e gentil.
"Você veio", disse.
"Este é o meu segredo", sussurrou sorrindo. "Sempre venho".
Passou o longo braço por seus ombros e juntas se foram, como antigas conhecidas.
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