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Poema Dezenove

dois desconhecidos sentam-se 
lado a lado 
no balcão de um bar pouco movimentado.
"não costumava ser assim, sabe", disse o primeiro,
"mas desde que aquele pub moderno abriu ali
na esquina
quase ninguém vem para cá."
o segundo acena e volta a se concentrar na bebida,
no futebol passando na televisão,
no barulho dos carros do lado de fora.

o segundo desconhecido só quer esquecer-se do dia.
da briga com a esposa logo de manhã,
de ver seus trigêmeos chorando enquanto acenavam para ele,
dentro do carro da mãe,
a caminho da escola; 
dos estresses no trabalho,
do smoothie que deixou cair no terno na pausa para o café,
no finalzinho da tarde. 
ele não conseguiu se focar na reunião com a companhia da capital.
só conseguia pensar em sua mulher,
nos insultos,
no inferno em que estavam colocando os filhos. 

deus, onde ele estava com a cabeça?

 "o pub é bem moderno mesmo, sabe?",
recomeçou o primeiro,
"eles têm música ao vivo três vezes por semana.
os jovens adoram.
e as bebidas, são todas misturas novas
especiarias importadas dos melhores países.
os velhos adoram. 
mas algumas pessoas simplesmente preferem o tradicional.
como eu, sabe?", dá um gole curto em sua bebida. 
"e acho que você também, não é, camarada?",
pergunta com um sorriso simpático.

o segundo vira a cabeça levemente
e se dá conta da presença do estranho.
sua visão está embaralhada 
e a iluminação baixa do bar não ajuda
nem
um
pouco.
ele umedece os lábios e diz,
com uma incomum fala arrastada:
"é a minha primeira vez aqui."

o primeiro faz um aceno positivo
quase imperceptível
de cabeça. 
"mas você veio para o velho Marcelo's"
o segundo fecha os olhos e tensiona o maxilar.
"você também é fã do tradicional, não é, camarada?"
"eu queria silêncio.
para colocar as ideias no lugar", conclui fixando seus olhos 
nos pequenos foguetes 
da camisa azul-marinho 
do tagarela.

sorri internamente com a memória de seu quarto de infância,
com artigos da NASA pendurados nas paredes,
modelos planetários,
réplicas de foguetes.
seu único filho não dá a mínima para a astronomia,
só quer saber de dançar com as irmãs
e ir para a casa da avó aprender a cozinhar.

uma lembrança em particular,
de encontrar o filho com um avental florido,
faz com que ele segure o copo com mais força,
força o suficiente para sentir dor.  

"... estou sendo um empecilho,
não estou,
camarada?"

o copo explode.
o primeiro se assusta e logo se apressa em chamar o dono do bar,
pedir uma toalha e um novo copo com uísque,
sendo prestativo como lhe foi ensinado.
mas, antes mesmo de ele abrir a boca,
o segundo já está de pé,
com um caco de vidro na mão.
ele enfia o caco em seu olho.
o primeiro berra de dor e o dono do bar grita palavrões,
já discando o número da polícia.

o segundo sai do bar,
caminha até o carro e entra.
o tagarela corre atrás dele,
com uma mão no rosto,
todo o corpo contorcido de dor,
gritando para ele não dirigir daquele jeito.
mas ele não dá a mínima,
e liga o carro.

o primeiro estava com os dois olhos fechados,
mas conseguiu visualizar o acidente
quando escutou o girar de pneus no asfalto,
as buzinas,
os jovens do pub correndo para o lado de fora,
o horror das mulheres.

os estranhos são tão interessantes.

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