A vida era a mesma naquela cidade do interior. Alguns trabalhadores acordavam antes das quatro para pegar no batente; outros já se demoravam mais debaixo dos edredons, dizendo o típico apenas mais um minutinho...; estudantes acordavam de muitíssimo mau humor para seguir para a escola e não prestavam atenção no mínimo de palavras ditas pelos professores cansados; mas, mesmo assim, alguém insistia em sair da rotina. Sentada no parapeito da janela de um prédio no centro da cidade, uma jovem moça carregava um livro de aparência antiga; livro gasto, livro com história, livro bom. Fazia uma etiqueta de roupa dançar entre os dedos na outra mão, e mudava de expressão a todo segundo, sentindo todas as emoções do personagem. Pausadamente parava para mudar a música que ecoava em seus ouvidos através dos fones; sem perceber, levantava os óculos para o lugar certo sempre que este escorregava pelo nariz. Por vez guardava a etiqueta sem querer no bolso do moletom gasto e entrava em desespero por achar que havia perdido o décimo terceiro marcador de livros na semana; mas logo o encontrava. Suspirava ao perceber que seu tempo estava se esgotando e pulava para dentro de casa novamente, saindo apressada pela porta e dando um "tchau" sibilado para a mãe, que ainda tinha sono profundo no quarto.
Essa menina era normal, era como todas as outras. Tinha fases, tinha amigos, tinha vontades e paixões. Era rotulada pela sociedade como egoísta e bipolar e ela insistia teimosamente em dizer que essas palavras não a abalavam, o que era uma mentira; no fundo, no fundo, ela sabia que todos que tentavam deixá-la para baixo, conseguiam seus objetivos. Mas o quê a mudava da maioria? A capacidade de superação, de seguir em frente, de apenas se fortalecer ao cair na caminhada. Passava correndo pelas ruas, espantando as pombas do caminho como um moleque travesso; dizia "olá" aos cachorros abandonados; sempre dava um beijo no rosto do português da padaria; nunca se esquecia de mirar o céu e saber qual o era o humor dele para aquele dia (e, ultimamente, ela observou que ele andava de muitíssimo mau humor, mas qual seria a razão?). Nunca se esquecia de sorrir para aquele jardim cuidado com tanto afeto pelo frei da igrejinha da esquina. E tudo isso em... dez, quinze minutos, ou às vezes menos? Precisamente. A jovem fazia tudo isso todos os dias da semana. E em um espaço tão apertado de tempo. Coisa que pessoas com muito mais tempo disponível são incapazes de realizar em toda uma vida.
Ela é como eu, como você, como nós. A única diferença é que ela dava valor ao mais simples bocejo e que conseguia ser admiravelmente feliz com apenas isso.
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