Ela para em frente ao portão e observa sem curiosidade as folhas sendo levadas pelo vento. Leva as mãos à boca e sopra-as com a intenção de esquentá-las. Fecha os olhos e o seu rosto fica paralisado em uma expressão de dor profunda por poucos segundos. Então, recupera-se e põe os pés dentro do cemitério onde seus irmãos estão enterrados.
Assim que seus Oxford azuis viram a esquerda depois do grande carvalho, ela se sente bamba e pensa que irá desmaiar. Olha aflita para os lados em busca de alguém que possa ajudá-la caso caia em cima das pedras, mas a verdadeira sensação de vertigem logo passa, deixando apenas a dúvida que mora dentro de si desde o seu aniversário de dezoito anos.
Assim que seus Oxford azuis viram a esquerda depois do grande carvalho, ela se sente bamba e pensa que irá desmaiar. Olha aflita para os lados em busca de alguém que possa ajudá-la caso caia em cima das pedras, mas a verdadeira sensação de vertigem logo passa, deixando apenas a dúvida que mora dentro de si desde o seu aniversário de dezoito anos.
Lembrando-se disto, coloca a mão no bolso do sobretudo com a intenção de desligar seu smartphone. Em todos esses anos ela nunca encontrou coragem o suficiente para contar o que misteriosamente fazia em todas as manhãs de seu aniversário. Uma vez, há dez anos, seus filhos tentaram segui-la. Ela decidiu que sairia de casa na noite do 4 de junho e, a cada ano, se hospedaria em um hotel diferente. Este ano ela optou por ficar em uma pensão na cidade vizinha.
A bailarina caminha determinada a acabar logo com o ritual e rapidamente vê as lápides dos irmãos mais novos. Segura sua bolsa com as duas mãos e encara os nomes, agora um pouco desbotados devido ao tempo. As fotos mostram-se incrivelmente conservadas e isso não a deixa mais tranquila. Nunca acreditou em fantasmas, mas ver sua irmã sorrindo sem os dentes da frente para ela naquela foto em sépia há quarenta e dois anos causou danos irreparáveis em seu psicológico. Sempre foi grata por ter parido três meninos saudáveis. Não sabia o que teria feito se tivesse tido uma filha — não gostava de pensar sobre isso.
Resolve se sentar. Cruza as pernas com cuidado para não sujar o vestido e passa a encarar a foto do irmão. Nela ele se parece com um adolescente comum da época, sorrindo um sorriso contido e falso. Ela se lembra bem da figura rebelde que o irmão realmente era. As roupas pretas, o cabelo em cima dos olhos; ninguém sabia onde ele conseguia as bijuterias. O toque áspero em sua voz. Seus amigos eram a parte mais intragável. Eram arruaceiros.
Ela sente um arrepio intenso quando surge em sua cabeça um encontro com eles: saíam de uma loja de conveniência com garrafas de bebida em sacos de papel. A maioria do grupo ignorou a sua presença tímida na bicicleta, mas o mais alto deles fez questão de caminhar até ela e flertar de modo sujo. Mesmo hoje em dia ela não consegue rir da situação. O garoto era dois anos mais novo e, dizendo a verdade, um estúpido. Mas ele era um homem que sabia que era um homem. Um garoto que sabia do poder que podia exercer se quisesse. E não há pior do que isso.
A bailarina, naquela manhã fria de junho, vê que algumas pessoas estão chegando ao cemitério e decide que é hora de ir embora. Levanta-se e segue pelo caminho de pedras pequenas, cobrindo o rosto na esperança de que ninguém a reconheça.
~
- Como ela está?
- Sua mãe está ótima! — Responde a auxiliar do lar de idosos. — Apesar de falar e se expressar muito pouco, sua saúde nunca esteve melhor. Acho que ver a senhora a deixará ainda melhor.
- Eu duvido disso... — A auxiliar continua sorrindo como se não tivesse escutado o descaso. A fofoca entre as funcionárias do lar sobre a famosa bailarina aposentada e sua mãe acontece há muitos anos. Uma vez por ano, na mesma data, no mesmo horário, a mulher alta e elegante passa pela porta e diz que veio ver a mãe — mas não a chama de mãe, diz o nome de batismo da mulher como se ela não passasse de uma incumbência. O que ela provavelmente era.
A mãe da bailarina era uma figura desbotada no lar. Não gostava de sair do quarto, não gostava de atividades ao ar livre, não interagia com os outros idosos e ficava extremamente irritadiça quando crianças visitavam os avós ou bisavós. Os auxiliares eram obrigados a levá-la para o lado de fora, onde ficava sozinha observando os pássaros ou jogando cartas, ou de volta para o quarto, onde ela se punha a abraçar o porta-retrato com sua foto de casamento.
Contra a sua vontade, a auxiliar é obrigada a sair de perto quando leva a mulher até onde sua mãe se encontra, encarando a janela. Junta-se com suas colegas e passa a observar a estranha família. A curiosidade sobre o assunto de suas conversas não existe mais, pois não há conversa. Há cinco anos as duas apenas olham uma para a outra por meia-hora e compartilham um cupcake. Depois, a bailarina tira um tricô da bolsa. No final, olha as horas no relógio de pulso, segura a mão da mãe com um pouco de força, beija-lhe a bochecha e caminha em direção a saída. Seu telefone geralmente toca imediatamente após.
Hoje não será diferente, portanto as auxiliares vão ajudar os outros familiares a acharem seus entes queridos ou fazer um lanchinho na cozinha.
- Oi, mãe. — Ela se senta na cadeira e olha com ternura para a mãe. Não parece mais velha do que no ano anterior, e os seus olhos ainda têm aquele o brilho indecifrável de quem esconde muitos segredos e se orgulha disso. — Como a senhora está hoje? Hoje eu faço sessenta anos. A senhora sabe disso? Provavelmente sabe. Você sempre soube de tudo. — Ela abre a sua bolsa e tira uma Tupperware com um cupcake. Tira a tampa lentamente. — Hoje eu faço sessenta anos... pelas minhas contas, isso significa que você não diz uma palavra sequer há vinte. Desde que o pai morreu. — Sua mãe olha para ela, os olhos castanhos brilhando como nunca. Sua filha sente desgosto. — Se eu soubesse que precisava falar dele para atrair a sua atenção...
Ela parte o cupcake ao meio. Tira um pequeno pedaço com o garfo e leva à boca da mãe, que ainda tem o brilho fantasmagórico no rosto. Continua repetindo o gesto até o bolo acabar. Sua mãe sorri com gratidão e volta a olhar pela janela.
- Sabe que hoje a sua bisneta tem uma apresentação de balé? — Sua mãe não mostra ter escutado. — Ela é tão orgulhosa porque está seguindo os meus passos. Eu odeio a mãe dela por achar que deve me impressionar a todo custo. — Então desiste de vez e tira o seu tricô da bolsa.
Ocupa-se com ele pelos próximos vinte minutos. Quando beija a bochecha da mãe, ela faz um movimento súbito e aperta suas mãos. Espantada, a bailarina olha para a mãe.
- Lady Lúcia... — ela diz.
Como ela sabe que a bisneta se chama Lúcia?
- Mãe? — A mulher pergunta soando desesperada. — Você quer falar sobre a Lúcia? Ou sobre o Danton? — Sua mãe apenas sorri e volta a encarar a janela, dizendo alguma coisa sem usar a voz. Sua filha desconfia que seja “lady Lúcia” novamente. Sente nojo e desprezo. Afasta-se da mulher e promete a si mesma que no próximo ano não realizará o ritual. Deseja que sua mãe morra antes de seu próximo aniversário, levando todas as âncoras de infelicidade que a impedem de ser verdadeiramente feliz.
Quando escuta os saltos da filha mais velha batendo contra o chão do lar de idosos, Lúcia vira a cabeça e observa-a indo embora e mexendo no celular. Pensa em tudo o que ela não sabe e sente-se melhor por isso. Foi capaz de guardar todos os segredos que precisava guardar durante toda a sua longa vida.
Sua filha não sabe que seu pai era um pedófilo. Sua filha não sabe que a mãe costumava trabalhar na prisão e que foi assim que conheceu e se apaixonou pelo futuro marido. Sua filha não sabe que sua mãe ajudou seu pai a fugir da cadeia. Sua filha não sabe que seus pais fugiram para outro país. Sua filha sabe o quanto sua mãe adorava o pai. Sua filha não sabe do acordo que seus pais fizeram. Sua filha não sabe que sua mãe foi quem inventou o acordo. Você pode usar os nossos filhos. Eu não aguentaria vê-lo preso. Não faça isso comigo.
Por favor. Use as nossas crianças.
Eu lhe darei quantas crianças você quiser, mas, por favor, não tenha a audácia de ser pego. Sua filha não sabe que seu pai abusava dos irmãos mais novos. Sua filha não sabe que foi poupada porque sempre foi talentosa. Sua filha não sabe porque seu irmão pulou da janela do prédio naquele dia.
Por favor. Use as nossas crianças.
Eu lhe darei quantas crianças você quiser, mas, por favor, não tenha a audácia de ser pego. Sua filha não sabe que seu pai abusava dos irmãos mais novos. Sua filha não sabe que foi poupada porque sempre foi talentosa. Sua filha não sabe porque seu irmão pulou da janela do prédio naquele dia.
Sua filha não sabe que sua mãe estava escondida no banheiro e viu tudo o que aconteceu naquele 5 de junho.
Sua filha acha que no seu aniversário de dezoito anos seu pai gritara LADY LÚCIA! LADY LÚCIA! LADY LÚCIA! com desespero na voz porque achava que a caçula estava brincando com uma faca ou perto de uma panela quente. Sua filha acha que o que aconteceu, aconteceu porque o seu irmão era louco.
Sua filha não sabe que sua mãe viu seu filho do meio segurando a caçula nos braços, afastando-se o máximo que podia do pai, dizendo não, hoje não, Lúcia está doente, pai, não, por favor, e que não o impediu quando ele se sentou na janela e se jogou do décimo andar.
Lúcia sorri consigo mesma.
Uma auxiliar vem para ajudá-la a ir para o refeitório. Lúcia encara-a sem piscar. A auxiliar, acostumada com isso, apenas sorri cansada.
Ela vê seu marido fechando a porta do quarto de Danton e sorrindo para ela, dizendo com devoção o quanto ela é boa em guardar segredos. Ela sorri com gratidão e volta a secar a louça.
Eu sou ótima em guardar segredos.
- Você está feliz porque sua filha veio visitá-la, não é, Lúcia? — A auxiliar pergunta. — Faz muito tempo que não vejo você sorrir tanto!
Lúcia segura a sua mão. Aperta-a com carinho.
***
é perturbador para mim até hoje me lembrar de que sonhei com o conto acima.
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é perturbador para mim até hoje me lembrar de que sonhei com o conto acima.
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