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A garota do panfleto de lanchonete

Ele literalmente pensa em reticências enquanto passa a mão pelo cabelo, e pisca os olhos como se não tivesse a intenção de abri-los novamente. Quando o faz, encara a pasta em seu pen drive onde estão todos os seus projetos inacabados. Segura o rosto com a mão enquanto rola a barra lateral da página, lendo cada título e a última vez em que cada arquivo foi alterado.

Um minuto atrás. Cinco horas atrás. Três semanas atrás. 

Quatro anos.

Senta-se ereto na cadeira e encara o arquivo mais antigo com uma sensação apreensiva no peito. Isto acontece todas as noites desde os últimos quatro anos.

Ele abre o arquivo e fecha os olhos, respirando o mais fundo que pode antes de prender a respiração e ler as poucas linhas.


23 de out
A garota do panfleto de lanchonete é real. Eu sei porque fui conferir.

Peguei o ônibus no ponto perto do supermercado da esquina. Sentei-me nos bancos traseiros e fiquei cerca de dois minutos e meio escutando a conversa de uma velha de cabelo crespo ao telefone. Simpatizei, mas ela não foi muito com a minha cara. Olhava para trás e me pegava encarando-a, transformava a boca em uma linha fina de desgosto e falava mais baixo no celular – o que não adiantava muita coisa, porque segundos depois ela já estava gritando de novo.

Desci perto de uma serralheria e fiquei algum tempo sentado em outro ponto de ônibus. Uma mulher me olhou engraçado quando eu disse que não, eu não desci do ônibus porque a. peguei o errado b. ele não iria até todo o caminho que eu precisava ir, mas porque c. eu estava onde deveria estar, só que queria descansar um pouco e o banco do ponto me pareceu uma ótima ideia. Depois disso parti para a lanchonete.

Eu não cheguei a realmente entrar na lanchonete porque não precisei. Do outro lado da rua, esperando o sinal abrir, eu vi a garota do panfleto. Ela era ainda mais inacreditável vista de perto e naquele momento eu acreditei em muitas coisas, saindo de amor à primeira vista e encerrando em stalkers. Também pensei em como foi conveniente eu ter saído de casa 1h30 antes do horário de abertura da lanchonete. Porque só assim eu poderia ver a garota sendo a garota, e não a garota da lanchonete.

Eis algo que notei na garota que trabalha na lanchonete: ela gosta de música. Cantarolava o que quer que estivesse escutando em seus headphones, mexia os ombros e a cabeça com a empolgação de quem estava na grade do show de sua banda favorita há mais de cinco anos enquanto olhava para o semáforo.

Quando o sinal abriu, eu me foquei em suas pernas. Não exclusivamente porque ela tem um belo par de pernas não depiladas, mas porque ela estava usando muletas e eu não queria que ela caísse no chão. Mesmo estando na faixa de pedestres no sinal vermelho, ela ainda poderia ser atropelada e ter todo o seu DNA espalhado na avenida. Por isso decidi ajudá-la como o cavalheiro oportunista que mamãe criou.

Diferente do que eu pensava, ela não me olhou como se desconfiasse de segundas intenções ou qualquer coisa do tipo, mas riu e passou o braço sobre o meu ombro como se nós fôssemos amigos de infância. Enquanto caminhávamos, pude perceber várias coisas, como a. ela não usa perfume b. o seu cabelo não tem cheiro c. ela usa muita maquiagem d. e muito. protetor. solar. Pensei em piscinas durante todo o percurso, isso me fez imaginá-la vestindo um biquíni e por pouco não tive uma erupção no meio das calças. Tentei puxar assunto, mas ela não queria saber de bate papo porque estava entusiasmada demais no que escutava nos headphones. Infelizmente, quando pisamos na calçada, ela também não quis conversar. Tirou o braço dos meus ombros, se apoiou na muleta novamente, me agradeceu falando alto e entrou na lanchonete. É, como se estivesse acostumada a ser tratada como uma velhinha cega que carrega um grande saco de papel com laranjas rolando atrás de si todos os dias.

Pensei em entrar na lanchonete e pedir um dos lanches mais baratos, apenas para começar uma terceira tentativa de troca de ideias com ela, mas, quando abri a minha carteira, fui forçado a desistir completamente. O único dinheiro que eu tinha, e ainda tenho, é a moeda de dez cruzeiros que desenterrei do quintal de um sítio quando eu tinha cinco anos, e meu vale-transporte.


24 de out
Voltei à lanchonete no MESMO HORÁRIO de ontem, mas não vi a garota nem do outro lado da rua, nem dentro da lanchonete. Entrei para perguntar sobre ela e o um cara espinhento que provavelmente ainda está no ensino médio arregalou os olhos para mim e olhou para as outras pessoas em volta. Pediu para eu chegar mais perto e disse que a garota do panfleto havia sido encontrada morta dentro de seu apartamento hoje à tarde. Basicamente, um bilhete, poucas palavras, e uma corda.


Ele lê a última frase mais algumas vezes e se pergunta como pôde ser tão frio. A verdade é que ele enlouqueceu consideravelmente naquela noite e nas outras e nas outras e nas outras. Tanto que jamais fez qualquer modificação no arquivo. Em quatro anos de leitura diária, nunca teve coragem de mudar mesmo a pontuação. Tinha medo de que qualquer alteração pudesse transformar o mundo sem ele ter consciência disso.

Quando relê a frase pela sétima vez, fecha o arquivo como se tivesse sido pego vendo pornografia pela mãe (uma metáfora justa já que havia sido pego diversas vezes ao longo da puberdade). Olha os demais textos, mas opta por não abrir nenhum. Hoje não é um bom dia para escrever. Desliga o laptop.

Pluga seu celular na caixa amplificadora, põe para tocar o DJ que fazia sucesso há quatro anos e aumenta o volume no máximo. Põe o timer de seu relógio para marcar cinco minutos exatos e, quando o inicia, caminha até a porta secreta dentro do banheiro da kitnet em que mora desde que começou a faculdade. Desce a mão pela parede até encontrar o interruptor de luz. Diz um palavrão quando se levanta e bate a cabeça no teto. Escuta o som de uma voz abafada, mas ele já está programado para ignorar qualquer coisa que possa distraí-lo: resultado de terapia intensa.

Dá um tapinha na lâmpada e sorri contente quando ela para de piscar.

Olha para baixo e sente uma onda incontrolável de desapontamento crescendo dentro de si, como uma tragédia natural.

- Sabe — diz abrindo a braguilha —, sinto falta do jeito que você me olhou quando nos conhecemos. 

Sente que escuta o som de novo, mas é apenas a sua imaginação.

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