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Vitrola

Há muito sim que não te escrevo, ficaram velhas todas as notícias. Sim, velhas, todas, absolutamente todas velhas, poeirentas e com mau cheiro, mofadas, mas jamais esquecidas, fracamente iluminadas pela luz pálida e amarela do sótão de minhas memórias, todas morbidamente se lembrando de quando você se foi.
Todas, absolutamente todas seguram fotografias em tom de sépia, encarando-as com a ternura que se encara doces lembranças de infância. As notícias vagamente assistem a televisão, algumas mexem lá no toca-discos travado. Nenhuma delas têm coragem o suficiente para abrir as cortinas ou desempoeirar a sala de visitas.
A Pensão das Memórias nunca esteve tão triste.
Eu me movo pela sala e chego até a bandeja com copos de café. Pego um e bebo lentamente. Amargo, desce arranhando pela garganta.
Encaro o grande relógio do escritório. Falta um minuto e meio para o final de meu intervalo. Aperto o nó da gravata e espano vestígios de poeira que peguei no caminho de volta da camisa de linho amassada. Faço um cone com o jornal e jogo-o no lixo. 
Vou até a janela pequena e encaro todo o concreto, asfalto e humanos que correm desesperados contra o tempo na avenida.
A minha vida nunca esteve tão triste.