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Sem título

Coçou os olhos levemente com as almofadas mais duras dos dedo indicador e sentiu o aroma reconhecível de sabão em pó e pelo de gato quando seu anular tocou a ponta de seu nariz arrebitado. Abriu os olhos e quis saber onde estava — casa?
Não, não era sua casa. Não havia mísero resquício da segurança e aperto quente e confortável no coração ao encarar aquele local. O que era aquilo e por que estava em seu caminho? E o que era o seu caminho, afinal de contas? 
Olhou para cima e lentamente se cegou com a luz do sol. O céu estava impecavelmente colorido de um dos lados, em sincronia com o lado esquerdo atolado de nuvens fofas, cinza-escuro e pouco convidativas. Para onde ela estava seguindo? Seria certo ir na direção do temporal? — Onde eu estou?, perguntou olhando para o chão e encarando a estrada. O asfalto parecia novo, como se estivesse esperando por ela. Viu também seus tênis surrados e os cadarços saltados para fora. Voltou a coçar os olhos e desta vez encarou seus cotovelos ossudos e seu pulso pálido. Seguiu com os olhos o caminho azul trançado de suas veias e se perguntou incerta se aquele era o caminho. Encarou sua palma áspera e notou mais vinte e uma possibilidades. 
De repente, ficou muito quente, quase insuportável. Sentiu o asfalto a sua volta tremular. Olhou para a direita e viu um grande carro amarelo seguindo em sua direção. Pensou em estender a mão e pedir uma carona, mas carona para que lugar? — Qualquer um, respondeu quando se sentou no banco de couro ao lado do homem sem rosto. Ele abaixou o volume do rádio e logo apenas se ouvia o som dos pneus no asfalto impecável. Ela encostou a cabeça no banco e percebeu que sua nuca estava suada. Constrangida, soltou o cabelo discretamente e passou a olhar pela janela. Não havia nada ao redor, apenas asfalto, apenas céu, apenas temporal. — Estamos certamente caminhando para uma grande chuva, comentou o homem sem rosto. Encarou-o. Nada respondeu.
— Por que não segue pela direção contrária? O temporal só diminuirá a velocidade da viagem. 
— Moça, a senhora teria um relógio de pulso por perto?
— Só tenho a roupa do corpo.
— Então certamente não precisa se preocupar com o relógio, muito menos com a velocidade da travessia. Afinal, estamos indo para qualquer lugar. Pensou ter visto o homem sem rosto sorrir; logo percebeu que estava delirando, era o calor, com certeza era o calor. Estava tão quente

Não feche as janelas!, ela exclamou com urgência. 
Virou-se para trás e viu uma criança de jardineira, segurando um balão vermelho com um sorriso feito a caneta no colo. Levou o balão até o rosto. Ela voltou a encarar o que estava vendo antes, a face da criança era terrível e doente demais para ser encarada. Voltou a encarar seus cotovelos ossudos quando entraram no temporal. Toda a visão ficou turva. Tão quente, tão quente.
Ela, então, sentiu uma mão escorregando por seu pescoço e chegando a sua boca. Quis gritar, quis explodir suas cordas vocais — a pele da criança estava derretendo. Ouviu o "ssshhh" dela entrando em seus ouvidos e foi lançada para fora do carro. Girou três vezes no asfalto, arranhando seus cotovelos e os joelhos. Se ajoelhou, olhou para cima. Estava no meio da tempestade. Olhou ao redor desesperada, procurando ajuda, mas não havia nada, o carro havia desaparecido, ela estava completamente sozinha. Tentou chorar, mas não funcionou.
Viu um balão vermelho voando alto e logo percebeu que a criança vinha caminhando em sua direção. Agora corria, corria muito. Um sorriso desfigurado mostrando dentes de roedores. Ela levantou-se do chão e correu para o lado oposto, correu, correu muito, correu até sentir que suas pernas derreteriam e sua pele descolaria. Correu e correu mas não saiu do lugar. Paredes altas estavam se erguendo nas quatro direções, aproximando-se dela. Olhou para trás, logo atrás dela estava a criança sem sobrancelhas. Ela esticou os braços, realmente esticou os braços, e passou as mãos em volta de seu pescoço, subiu, foi para o nariz, começou a asfixiá-la e meter-lhe unhadas violentas no rosto, arrancando a pele, fazendo o sangue sair.

E então nada. Abriu os olhos e se viu imersa na escuridão. Eu... morri? Estava deitada com a cabeça num travesseiro encharcado de suor, todo seu rosto e corpo suados. Piscou. Olhou para o lado e viu o despertador. Estava em casa. (Não, não era sua casa. Não havia mísero resquício da segurança e aperto quente e confortável no coração ao encarar aquele local.)