- Não aguento este menino na véspera de natal. Senhor Deus, mostrai-me minha paciência! — Com a última colherada, Noah acabou com o prato de comida mais cheio do ano, com tudo o que havia de direito e até o que não tinha, menos sorvete porque seu tio dizia que feijão e sorvete iriam fazer a casa ficar inabitável até véspera do ano novo.
Noah recostou-se à cadeira e acariciou a barriga como se um novo serzinho estivesse em desenvolvimento lá dentro dele. Isso fez com que sua família desse uma boa gargalhada. Era véspera de Natal e sua família, como em todos os anos, havia se reunido para uma boa ceia. Era a data do ano que Noah mais esperava em todo ano. Ah, natal! Presentes e comida da boa, mais seus primos e sua linda prima de terceiro grau Gina. Nada mais maravilhoso para se encerrar o ano.
Mas tinha algo que ele gostava mais do que a comida, os presentes e até mesmo Gina. Era a expectativa de conseguir ver o velho. É, aquele mesmo. Que vem num trenó voador com um saco vermelho e enorme nas costas, cheio de presentes para todas as crianças do mundo. Aquele tal velhinho gordo, de olhos azuis bondosos e roupa vermelha e gozada. Sim, o próprio Papai Noel; ou tio Noel, que era como Noah gostava de chamá-lo. Seu sonho de Natal era poder abraçar Noel e dizer obrigada por deixar sua família mais feliz. Sempre foi assim desde que ele descobriu que os presentes não apareciam por entusiasmo.
E ele foi dormir tranquilo naquela noite de pura neve. Outro sonho de natal de Noah era dormir sob o cobertor de neve lá de fora, mas ele sabia que esse só seria possível no mundo da fantasia da sua imaginação, localizada na via do faz-de-conta de sua cabeça.
E eis que Noah pressentiu que era hora de pegar o tio no flagra, mais ou menos às duas e meia da madrugada. Ele tomou cuidado para não acordar seus primos, não queria intimidar o velho. Foi andando no maior cuidado e agradeceu por suas meias não terem saído de seu pé. Mais um passo e ele chegaria a sala da árvore.
Sentiu-se nervoso. Será que ele falava português? Será que ele escutava? Será que ele desaparecia quando visse que alguém o vira? Seria melhor levar um pouco de leite e biscoitos? Sim, talvez, ele poderia correr até a cozinha e trazer e deixar o tio Noel feliz!
Mas foi aí que Noah ouviu vozes conhecidíssimas. Deu um passo a frente e viu sua mãe e duas de suas tias colocando caixinhas, caixas e caixões em frente à árvore, conversando baixinho, contando até piadas, relembrando do sorriso inocente das crianças antes de dormir.
- Mas... cadê o tio? — Noah perguntou. Parecia que o mundo estava escorrendo diante de seus olhos. - Mamãe, onde está o tio Noel? — Suas tias e sua mãe não tinham ideia do que dizer.
- Ele deixou... er... os presentes para nós colocarmos aqui, filho! — Ele soube que era mentira quando ela gaguejou. Sua mãe nunca gaguejava. - Ele é muito ocupado, sabe. Tem mais várias casas para ir!
- Ele não existe. Bem que eu acho estranho toda vez que meus amigos do colégio riem de mim quando eu falo do natal... obrigado, mamãe. — E saiu.
A senhora sua mãe ia correr atrás do garoto, mas sua irmã e sua cunhada a impediram. - Ele ia descobrir de hora para outra. Fique tranquila, ele irá superar.
A primeira coisa que o menino fez quando chegou ao quarto foi puxar com violência um enfeite natalino da porta (um Papai Noel preso numa chaminé). Noah sentia-se traído de alguma forma. Oito anos de sua vida acreditando no nada? Sustentando só mais uma história boba que os pais contam para os filhos? Inaceitável, simplesmente isso. Para ele o natal tinha perdido todo o brilho. Era apenas mais um feriado idiota.
A manhã de 25 de dezembro foi a mesma para todos, menos para Noah e os pais do menino. Principalmente para a mãe. Ela se sentia... como ela se sentia? Ela adorava ver o filho falar dos feitos heróicos realizados pelo tio Noel no dia de natal e hoje... hoje ela não teria nada disso. E o pai sentia-se dividido. Não queria ver sua esposa triste, mas ficava feliz por ver o filho abandonar uma crença sem sentido. Mas também sentia falta do menino feliz que Noah costumava ser nos dias de natal. Decidiu que era hora de fazer algo para reverter a situação. Ou pelo menos trazer seu antigo filho de volta.
- Não vai abrir seu presente? — Ele perguntou manso, sentando ao lado do filho. - É o único que ainda está na árvore. Corra e pegue-o ou seus primos podem levá-lo com eles! — Riu, mas o menino continuou impassível.
- Podem levar, não ligo.
- Pensei que queria aquele trem. — Os olhos do menino cintilaram um pouco ao pensar naquele trem que tanto queria, porém...
- Como sabia que era um trem, pai? — Noah encarou o pai com desgosto. - Te entreguei a minha carta lacrada para você levá-la até o correio. E pedi para não abri-la, pai. Pedi, sim. E prometeste a mim que não a leria.
- Mas eu não li! — E era verdade. - Eu apenas sacudi a caixa, Noah. Só isso. Acho que você deveria dar mais valor ao trabalho duro da sua mãe. Acha que é fácil gastar dinheiro com brinquedos no último mês do ano, rapaz? Não, não é.
- Então o senhor sabia o tempo todo.
- Sim, o tempo todo.
- E nunca me disse nada.
- Porque gostava do menino feliz que você era. Sabe, Noah...
- E as crianças que não têm pais com dinheiro para comprar os presentes delas? E as crianças que crescem e têm filhos acreditando em Papai Noel? Elas não vão ganhar presentes? Pai, isso é feio. É uma história idiota. Deveria ser desfeita. O Ministro deveria anunciar isso em rede mundial! — Seu pai ficou surpreso.
- Sim, isso é verdade, Noah. Mas sabe por que o Ministro não faria isso?
- Por que ele acredita no Noel?
- Por que ele e mais todos os líderes do mundo querem que o mundo tenha esperança, Noah.
- Esperança?
- Sim, Noah. A expectativa, a fé, a surpresa. E a felicidade em conseguir algo tão estimado e desejado. Não apenas no Natal, Noah, e sim em toda uma existência. A esperança é um sentimento que deve preencher todo mundo. Até os mais desesperados – e principalmente esses mesmo. Não deixe ela te abandonar, ouviu? Ou será um adulto rancoroso, um velho babão. Você quer isso?
~
- Ei, Doutor? — Noah parou de mexer naquela papelada e olhou em direção a enfermeira que vinha até ele. - Todas dormiram.
- Certeza?
- Absoluta, Noah. - Ela sorriu.
- Então está na hora da operação Noel!
Noah reuniu todas as enfermeiras e médicos da clínica e todos levaram os diversos presentes doados as crianças em direção a uma pequena árvore na área de lazer. Dentro de cada embrulho, um bilhete.
Nunca perca a esperança, pequeno.
Tio N.
Incrível. Preciso dizer mais alguma coisa?
ResponderExcluirBonita visão sobre o Natal.
ResponderExcluirBeijo