Translate

Sobre pares e meios

São raras as vezes em que tenho certeza de que não há um, mas dois monstros diferentes partilhando o meu ser — mas não de forma igualitária.
Um deles vive manso, raramente aparece. Quando vem, me deixa desconfortável comigo e com todos, incapacitada de dar um passo de 0,5 milímetro sem me perguntar contínuos "por quê", "para qual necessidade". A única vontade é a de me deitar em qualquer lugar e lá permanecer por horas, semanas. Anos.
Mas eu não o detesto; eu o estimo. Ele foi o segundo que mostrou interesse por mim e se mudou há poucos anos. Apesar de tudo, ele me faz bem. Ele é o completo oposto do ser que me habita desde que me entendo como ser vivo e pensante. 
No turbilhão de emoções que contenho, sou como um coelho, ele é como uma raposa. Por mais fundo que eu esteja dentro de minha toca, qualquer movimento de pedrinhas me fará parar e me forçará a ficar alerta. Eu irei me assustar com a minha própria sombra mesmo que ela não esteja presente. Eu irei me encolher dentro de mim e a angústia criará forma sólida e segurará o meu coração com as duas mãos, ora ameaçando jogá-lo no chão com um sorriso sádico nos lábios, ora apertando-o 
no
máximo
de
sua
força.
O primeiríssimo não me incapacita de viver, mas eu gostaria que ele o fizesse.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Olá, pessoa legal. Fique à la volonté para críticas, elogios, dicas, expressar opiniões, seja lá o que você quiser. Não se acanhe. Este espaço aí em baixo é seu e ninguém pode tirar esse direito de você, tá?