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O ato de dar de ombros

Ele se sentou no banco lateral do centro da universidade porque sempre gostou muito daquele lugar em particular. Se você olhasse para cima podia ver todas as portas das salas do terceiro andar e às vezes alguns estudantes encarando você, tão insignificante lá em baixo, olhando para eles, lá em cima.
Você não os vê exatamente porque os graus dos seus óculos já estão com a validade vencida, mas os vê o suficiente para entender a cor de suas camisetas, a cor de suas peles e de seus cabelos. É relaxante executar esse pequeno ritual, é tranquilo. 
(Na vida real ele está deitado com a cabeça em seu travesseiro, olhando as sombras dos móveis de seu quarto, pensando em coisas que deveria esquecer, desejando dormir ou levar um tiro.)
Enquanto ele encara o rapaz de camisa vermelha ele pensa em como gostaria de usar roupas claras, mas não pode porque transpira demais e logo as camisas ficam todas manchadas com marcas feias e grandes de suor. O segredo para isso não acontecer é não parar de se mover. Mas ele não pode não parar de se mover. Se ele está fora de casa é porque precisa parar em algum lugar. 
Esse pensamento automaticamente o leva para outra coisa que o incomoda muito. Ele não sai de casa. Ele só vem saindo de casa nos últimos três meses (certo, dois. Antes ele saía com os amigos para lugares recreativos ou para ir até a casa dos mesmos) para ir à terapia. É um período bom o de 40 minutos que ele gosta de levar até chegar a frente do prédio, subir as escadas e entrar na já entre-aberta segunda porta, onde a luz sempre está acesa, a janela sempre fechada e o sofá amarelo sempre desabitado. Ele respira um pouco, se senta e logo volta a colocar os fones nos ouvidos (ele costumava fazer isso, mas agora não tem mais celular e não faz muito sentido sair de casa com fones de ouvido sem ter uma porta para conectar os mesmos) porque não quer ouvir a paciente das 18 horas. Ele não quer ouvir os outros, ele não quer simpatizar com os outros.
O estudante de camisa vermelha sai da sacada. Começa a imaginar se o estudante de camisa vermelha é realmente um estudante ou outro civil como ele próprio sentindo-se completo apenas por estar na universidade, sentindo uma brisa diferente e ouvindo vozes de professores e carros lá na rua. Ele começa a pensar se o sim-ou-não-estudante se sente miserável.
Se sentir assim é muito ruim. Você se sente entediado e apavorado em pouco espaço de tempo, quer fugir e fixar seus pés em um bloco de concreto que você construiu no chão do seu próprio quarto, quer gritar de raiva e se afogar nas suas próprias lágrimas, mas acaba não conseguindo fazer nenhum dos dois porque você não sente vontade de fazer nada. A vida está aí e você não liga muito para a permanência dela. 
Ele se levanta e vai embora da universidade.
(Na vida real ele finalmente pega no sono.)

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